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JC Agora

Editorial – A laranja do clã Bolsonaro azedou de vez

A derrocada antecipada ou não do (des)governo depende, e muito, das explicações em falta do primogênito

“A montagem de seu grupo de ministros e ministras e os escândalos midiáticos estão aí para afirmar que nada deve mudar”, escreveu este articulista em dezembro do ano passado quando da transição entre os (des)governos. O “nada vai mudar” fazia contraponto ao discurso usado exaustivamente em campanha de que “tem de mudar tudo isso aí, tá ok?” do presidente Jair Bolsonaro.  Bom, à época, o cronista acrescentou ainda que “aqueles que recorrem ao ‘vamos esperar para ver após 1º de janeiro, tá ok?’ como método de retardar a frustração: fiquem à vontade no trabalho de acumular descontentamentos – e haja descontentamento”. As aspas têm peso e serviram, com humildade analítica, para antever as primeiras ações de Bolsonaro enquanto presidente da República e, mais recentemente, a difícil situação em que se envolveu seu filho primogênito, senador eleito Flávio Bolsonaro. 
Charge: Carol Andrade, "Barbie Cospe Fogo"
Como consta do perfil de Jair Bolsonaro publicado por este blog ainda na efervescência do pleito presidencial de 2018, o então capitão da reserva nunca carregou nenhum aspecto daquilo que tem sido conceituado de “novo”, já que esteve na condição de parlamentar por 27 anos e seu arremedo de ideias sempre guardou referência em períodos obscuros da história da humanidade. Entre as razões consideradas por parte dos brasileiros que foi às urnas e elegeu a agenda bolsonarista estava o desejo por mudanças na condução do País, sentimento induzido por uma narrativa de interesse para alguns grupos da sociedade – inclui-se aqui a chamada “Grande Mídia” fortemente financiada por setores com lobby forte sobre o governo, como o financeiro –, e a existência de o mito de que Jair Bolsonaro, chamado de “mito” pelos seguidores, e seus rebentos eram honestos, em uma oração conflitante e que se destrói sozinha – “mito (não) existe?”.

Assim como Jair Bolsonaro já não sustentava seu discurso durante a transição – vide, por exemplo, as indicações nada técnicas e puramente corporativistas para ministérios e 2º e 3º escalões da Máquina Pública federal –, seus filhos, todos iniciados na política por orientação do pai, caíram no conto do vigário e acreditam serem filhos do rei. O mais caçula, Carlos Bolsonaro, enquanto não retoma os trabalhos na Câmara dos Vereadores do Rio, onde é vereador desde 2000, acompanha o pai presidente em reuniões no Planalto, mesmo sem ter função oficial. O rapaz foi responsável pela campanha vitoriosa de Jair e vira e mexe usa seu perfil nas redes sociais para fazer publicações de muito mau gosto – representação de tortura no banheiro – e para denunciar um eventual ataque à vida do presidente da República. 

O “do meio”, deputado federal eleito Eduardo Bolsonaro, não esconde a vontade de ser uma espécie de líder do pensamento à direita no Brasil. Isso, sem precisar passar pela Academia. Não que seja autodidata. É que do lado de lá do espectro político a condução dos pensamentos é mais difusa, não há comando aparente. O que parece compreensível, já que gostam daquela retórica de que todos os que venham a ser considerados adversários são seres errantes, não sabem de nada, e afins. Quando não perdem a estribeira e partem para a violência verbal. Nota: em geral, não há estribeira.
Imagem: Cartunista Claudio Mor
Eduardo Bolsonaro também usa de suas redes para explorar os piores sentimentos de seu público e aborda desde xingamentos a adversários tanto políticos quanto da esfera privada, inserindo na “roda” a ex-namorada Patrícia Lélis.

Após essa brevíssima contextualização sobre três integrantes do clã Bolsonaro – pai e dois filhos –, o artigo alcança às notícias recentes envolvendo o primogênito da família, senador eleito Flávio Bolsonaro, e seu ex-assessor de gabinete, Fabrício Queiroz. Flávio foi catapultado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro – Alerj, onde despachava como deputado estadual desde 2002, para o Senado Federal após ter sido o senador mais votado de seu estado, o Rio de Janeiro, com pouco mais de 4 milhões de votos.
O caso, que recebeu o nome de “Bolsogate”, envolve cifras altas e uma relação inter-famíliar constatadas por relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras – COAF na forma de movimentações financeiras atípicas. Em outras palavras, e até que se prove o contrário, como tem sido a tônica justiceira dos últimos tempos, um esquema de corrupção, com direito a “laranja” e documentos aos montes. 

Queiroz foi motorista de Flávio e mantinha boa, talvez ótima, relação com o patriarca dos Bolsonaro e agora 38º presidente do Brasil. Sabe-se que o então motorista movimentou 1,2 milhão de reais entre janeiro de 2016 e o mesmo mês de 2017, e 5,8 milhões de reais entre os anos de 2014 e 2015. Já seu patrão, o então deputado estadual fluminense, pagou título bancário – boleto – de 1.016.839 reais e, entre os meses de junho e julho de 2017, sua conta bancária foi destino para 48 depósitos de 2 mil reais cada, totalizando 96 mil reais. Todos realizados no autoatendimento localizado na Alerj. 
Imagem: Cartunista Claudio Mor
Segundo o Ministério Público do Rio, há esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos na Assembleia. Para tanto, 10 deputados estaduais e 3 servidores foram presos, e todos os outros tiveram a oportunidade de explicar o porquê das movimentações atípicas também apontadas pelo COAF em suas contas bancárias. Há investigação ainda sobre a prática da “rachadinha”, quando os servidores contratados em regime de comissão repassam parte do salário para o político contratante. 

As suspeitas que pairam sobre o caso de Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República – nunca é de mais repetir –, e Fabrício Queiroz é exatamente a prática da “rachadinha”. Queiroz seria o “laranja” de Flávio, na condição de se responsabilizar por cobrar e receber a contribuição de seus pares de gabinete. Entre tais pares estavam sua esposa e filhas. Uma, aliás, assessorava o então deputado federal Jair Bolsonaro no DF, enquanto orientava, no Rio, celebridades como a atriz Bruna Marquezine em suas atividades físicas.

A diferença de Flávio e Queiroz para os outros deputados e assessores é que ambos não foram presos, como alguns já o foram, e também não prestaram explicações ao MPRJ, como outros já o fizeram. O motorista por quatro oportunidades foi convidado a explicar sua movimentação atípica e faltou as quatro. Já o senador eleito, quando chegou sua vez, preferiu não ir ao MPRJ. Disse que queria se inteirar da investigação, que, a bem da verdade, não era nem investigação e tratava-se apenas de um convite ao esclarecimento. Flávio e Queiroz não eram alvos. 

Assim que teve acesso aos autos do Ministério Público, o filho do presidente da República fez careta como quem come uma laranja azeda e entrou com pedido no STF para suspender a investigação não dele, mas a que recaí sobre seu ex-assessor. Na reclamação, Flávio alegou ter foro privilegiado, mesmo antes de sua posse como senador, prevista para o primeiro dia de fevereiro, e sabendo que os procedimentos do MP são anteriores à diplomação, em dezembro, como o articulista comenta na 3ª edição do Redação JC, na TV Jovens Cronistas

Para além da suspensão, o senador eleito pediu a nulidade de todas as provas. A investigação está parada até uma decisão do ministro Marco Aurélio Mello, na volta dos trabalhos no STF em 1º de janeiro. 
Imagem: Cartunista Claudio Mor
Ao invés de esclarecer todas as dúvidas dos procuradores, Flávio e Queiroz refugiaram-se em entrevistas para canais de tevê mais aliados ao (des)governo vigente. Enquanto o motorista se contentou com apenas uma participação no SBT, o senador eleito também esteve na emissora de Silvio Santos e, no domingo, 20, deu as caras com papelada em mãos na RecordTV e RedeTV. Por lá, explicou que o pagamento de pouco mais de 1 milhão de reais trata-se de compra de um imóvel; que não há “rachadinha” em seu gabinete; e que ele foi responsável pelos 48 depósitos em sua conta. A prática de chapa branca no jornalismo presta tamanho desserviço. Exemplo disso: sem ser perguntado, Flávio não respondeu por que não depositou todo o valor em uma agência do banco em que tem conta. 

Novamente preferiu as emissoras às autoridades competentes, apesar de ter dito, mais de uma vez e nas mesmas entrevistas, que não mostraria os documentos aos telespectadores porque quer mostrá-los às autoridades competentes. “Tela azul” ou “buguei”, diria alguns internautas. Fato é que o SIMBA grupo criado por RecordTV, RedeTV e SBT com a finalidade de lutar por melhores condições frente ao monopólio da Vênus Platinada nas operadoras de TV por assinatura, parece rendido.

Todo o enredo joga várias pás de terra sobre parte do discurso que elegeu todos sob a franja bolsonarista, o que não necessariamente é novidade. Convenha-se que é difícil fazer o exercício de esperar outra posição de agentes políticos tão articulosos ao ponto de passar décadas trabalhando apenas nos bastidores, com pouco trabalho efetivo prestado, ao analisar a atividade parlamentar das figuras, e rendimentos à base de dinheiro público. 

Flávio Bolsonaro e Queiroz, internado em hospital de alto padrão em São Paulo, com valores incompatíveis com seus vencimentos, devem explicações e essa é uma percepção não apenas do articulista, mas também de dirigentes do PSL, partido do senador eleito, e da ala militar do (des)governo Bolsonaro.

Jair Bolsonaro viajou para o Fórum Mundial de Davos e volta apenas na quinta-feira, 24. Na volta, deve seguir para o mesmo hospital em que Queiroz se trata, o Albert Einstein, para a retirada da bolsa de colostomia. Durante todo esse período, o País será comandado pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão. O vice disse que o caso de Flávio não tem nada a ver com o (des)governo. Ora, é claro que tem. Tanto é que integrantes do (des)governo reforçam o coro por explicações.

E mais, a ação de Flávio pode suscitar investigação contra o próprio presidente. Melhor, contra a primeira-dama, por conta do cheque repassado por Fabrício Queiroz. Para isso, basta o ministro Marco Aurélio solicitar posicionamento da procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Talvez ela não o faça porque sua permanência no cargo após setembro, quando há eleições e geralmente o procurador-geral em primeiro mandato é reencaminhado ao cargo – caso de Dodge –, está ameaçada. Bolsonaro não gostou nem um pouco de ter sido denunciado por racismo e já falou em trocá-la. 

O primogênito do clã deve explicações. A derrocada antecipada ou não do (des)governo depende, e muito, disso.

Leia Também: Editorial – Milicianos do “Escritório do Crime” e Flávio Bolsonaro
Clique aqui para assistir a 3ª edição do programa Redação JC, com análise dos primeiros dias de (des)governo Bolsonaro.

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