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JC Agora

Eleições 2018 - O tom das campanhas


Parece que faz uma eternidade, os dias passam devagar, como estivéssemos (e estamos mesmo, contra nossa vontade) caminhando rumo ao abismo. Mas a campanha eleitoral oficial, na TV e no Rádio foi retomada na última sexta (12), porém já é possível identificar o quão se tem apelado mais para o "não" que para o sim, para o terror, sobretudo do lado Conservador da campanha, com isso, a população em grande parte já convicta em seu voto, não conhece as propostas de quem vai assumir o país e os estados e pior, há candidato que sequer tem proposta e por isso se esconde em conspirações e ataques.


A campanha de Bolsonaro na TV é uma versão light do circo de horrores que é sua campanha virtual, a teoria conspiratória que ele apresenta no seu programa que mais parece um daqueles DVDs sobre a "Nova Ordem Mundial" é que: "O PT 'idolatra' a Venezuela", ora, nunca vimos ninguém no PT ou mesmo em qualquer campo da Esquerda no Brasil chamar Maduro ou sequer Chavez de "mito", idolatria é algo que ele tem pregado com técnicas e com um êxito que me lembra o de Goebbels. Por fim, ainda nas ilegalidades, um golpe duro que o próprio "outro lado" o forneceu, o desequilíbrio de Cid Gomes, que por ele (sem consentimento) foi explorado tanto no programa, quanto nas redes, de uma coisa não se pode acusá-lo, de não ser "esperto", lembrando que "esperteza" não é sinônimo de inteligência

A outra tese que ele apresenta pra amedrontar a população é a de que o "Foro de São Paulo" seria um grupo que tem por objetivo tomar toda a América Latina e a tornar "Comunista", o que segundo eles é "tornar igual a Venezuela". Primeiro que não há nada de "Bem comum" na Venezuela, o que se passa lá é (algo já reconhecido inclusive por Haddad, partido a parte) um grave estado de crise onde o ambiente não é democrático, independente se há ou não eleições.

Se o candidato tivesse o mínimo de honestidade consigo mesmo e com seu eleitorado, repararia que o "Foro de São Paulo" é nada mais que um fórum de líderes políticos, que está longe de ter uma unidade ideológica, sou testemunha inclusive de que há arranca-rabos feios lá dentro, ou seja, não há uma unidade conspiratória "contra o povo e as nações" latinas, isso é conversa pra zumbi dormir. Um último ponto é que não há nada de errado ou ilegal em existir um fórum de lideranças políticas, vale lembrar que, ainda que informalmente, o candidato representa três "foros", três bancadas, a da bala, a do agronegócio e a fundamentalista e ninguém diz que isso é um acinte, ainda que seja.

Falamos inicialmente que o candidato apelava mesmo era nas redes, que as teorias conspiratórias patéticas de seu programa eleitoral eram apenas uma pilula do que fazem seus apoiadores no whatsapp e ele nas suas lives. A parte das acusações sem pé nem cabeça de perversão que ele faz ao adversário, que nem cabe comentar aqui, vale pincelar um pouco do que ele mesmo diz hoje, além das barbaridades que já disse no passado recente, como a confissão de ser homofóbico e do uso da imunidade parlamentar para tal, que é contra os direitos das domésticas e que crê que as mulheres devem menos ganhar menos por engravidar e gerar "custos" ao estado, que "fraquejou" ao ter uma filha, que só com "menos direitos" se pode gerar empregos (isso em um país onde a desigualdade e o sobrelucro dos mais ricos impera), que é a favor da tortura e que (aí sim) idolatra o ASSASSINO Brilhante Ustra, enfim, essas e outras barbaridades ele disse num passado recente.

Na sua primeira live, o candidato disse que iria "acabar com a Esquerda" e "acabar com o ATIVISMO" no Brasil. Isso é muito grave e sim, legitima (na visão de seus apoiadores) os ataques que temos visto por parte de seus apoiadores a quem tem posição política contrária. Depois, o candidato chamou quem não tem onde morar de "terrorista", como se terrorista não fosse o Estado, que não cumpre o "Estatuto das Cidades" e permite que um incontável número de famílias não tenha onde morar. Com isso já começaram os ataques também a essas populações carentes. Enfim, sua campanha tem uma aura de autoritarismo e medo na qual infelizmente parte da população tem fechado os olhos em nome sabe-se lá de que, da "honestidade" que não é, pois não é mentira quando o ex-capitão diz ter o apoio de mais de 300 parlamentares, grande parte deles das bancadas acima citadas e de partidos sim, CORRUPTOS. Formalmente o apoio do PTB é claramente um apoio corrupto. Dos apoios informais, não se pode dizer que receber apoio de: PP, PR, DEM, parte do MDB e parte do PSDB, seja um apoio de pessoas honestas e ilibadas.


Já a campanha de Haddad se defende contragolpeando Bolsonaro, mostrando o que ele representa, o risco a democracia. É um candidato que fala com a imprensa e ao eleitorado, apresentando suas ideias e seu programa, que na sua pessoa, responde com muita dureza e chama o adversário para o debate, da qual este adversário foge, pois não tem quaisquer propostas, ou seja, no que tange ao candidato, ele fez o que pôde, fez uma campanha e foi uma candidatura absolutamente digna, não se pode dizer em momento nenhum que ele foi um candidato fraco no que poderia fazer ou que se omitiu, ele cumpriu bem o seu papel independente do que as pesquisas mostram.

Por outro lado, na série "autocrítica", que aliás é desonesto dizer que Haddad não fez, quem diz isso não acompanhou suas entrevistas. Mas há que apontar dois erros, onde um deles a meu ver deu margem para Bolsonaro bater em Haddad, a mudança na identidade visual da campanha inicialmente foi muito brusca, o vermelho, marca do partido, desapareceu num primeiro momento por completo e depois voltou circundando o número, que apareceu em amarelo como a estrela. Soou falso, não soou sincero esse esconder da identidade do partido, ainda que fosse necessário aglutinar forças, é 13, é o PT que em votando em Haddad as pessoas escolheriam nas urnas, esse portanto foi um erro usado por Bolsonaro.

Outro erro que precisa ser apontado é o elevar de tom de Haddad, quase que como grito, Haddad é um cara tranquilo, educado, de fala mansa, cujo Adnet até brincou em sua série de imitações que "chega a parecer cansado", o tom de Haddad é esse, sereno. A elevação do tom não soou legítima. Então, apesar do candidato em si ter uma postura irretocável, cabe registrar (e serei alvo de críticas por isso) que o quão o partido ajudou no primeiro turno a fortalecer a imagem de Haddad, ilado a Lula, o está atrapalhando neste segundo turno com uma radical mudança na campanha, que não soou legítima, o PT sempre ganhou sendo PT, "deixar de ser PT", ainda que com o antipetismo galopante, não seria um caminho vitorioso e realmente não está sendo, pelo visto até aqui.


Antes de passar ao tópico dos estados, não poderíamos deixar de citar com mais profundidade o que tem acontecido no âmbito cirista. Falamos de passagem do incidente envolvendo Cid, a qual eu pessoalmente "relevo", pois os irmãos são conhecidos por declarações fortes, impensadas, carregadas de emoção, que sim, são prejudiciais, mas que também fazer parte da essência de quem são, eles não tem meias palavras, é de se esperar que soltem declarações duras, da mesma forma que Ciro se posicionou com firmeza em relação a falta de provas quanto a prisão de Lula, Cid relembrou que ele está preso, isso é pequeno perto de outras coisas que vem acontecendo, numa parcela pequena, porém barulhenta da militância e dos votantes no candidato do PDT, legitimados (novamente, ao ver deles) por Katia Abreu. 

Tem ocorrido numa pequena parcela da militância como já dito e se espalhando entre os votantes, um magoado movimento pela nulidade do voto, como já em campanha por 2022. Isso iniciou pequeno e cresceu depois que Katia sugeriu a Haddad que renunciasse a sua candidatura, visto que há dispositivo constitucional que permite neste caso, que o terceiro colocado na eleição assuma a vaga no segundo turno. O que se viu foi muita mágoa em relação ao não apoio do PT de uma chapa com Ciro na cabeça. Mas ora, se o PT cometeu tantos erros assim, o apoio e a divisão da chapa seria receptível? Eis aí uma grave contradição.

Sim, a declaração da Senadora se deu com base em um dispositivo constitucional, era realmente possível legalmente, mas impossível do âmbito político. Soltar essa a meio do segundo turno ou foi muita "ingenuidade", ou foi mesmo para tumultuar o processo. Pois se o PT tivesse de compor com Ciro na cabeça da chapa, o faria na pré-campanha e como todos sabemos, os esforços do PT sempre foram para ter Ciro de vice. Legitimamente e defendendo seu próprio (e bom, a propósito) programa, o candidato recusou e seguiu a vida como candidato, onde teria de ter derrotado Haddad para avançar ao segundo turno, o que não aconteceu, a vontade popular foi de que sob a batuta de Lula, tática que foi alvo de discussão interna aqui, só saberíamos se a tática foi vitoriosa ou não se Bolsonaro não abrisse vantagem, a ascensão de Haddad sim foi incrível, mas era Lula quem poderia vencer o adversário ultraconservador mesmo sob a bandeira do PT e não, Haddad não é Lula, representa Lula e seu programa apenas.

Portanto essas mágoas agora fazem pouco sentido, ainda mais sob a ameaça a democracia que está em curso, esse pensamento quase que obsessivo em 2022 da parte da militância (Ciro falou em última candidatura várias vezes) mostra que essas pessoas que pregam a nulidade não estão percebendo a gravidade do momento e serão também responsáveis por tudo de ruim que acontecer no Brasil já a partir do dia 29 e sobretudo após o dia 2 de Janeiro. Ciro não tinha obrigação nenhuma de subir em palanque do PT, mas ainda que crítico, o apoio a Fernando Haddad contra quem tanto repudia deveria ser um tanto mais explícito, o agora que está em jogo coloca também em cheque o futuro.



Em SP o tom também tem sido pesado e com isso, um dos candidatos só ataca e faz marketing e o adversário contragolpeia e tenta ainda ser propositivo.

O desejo e o que foi feito por Dória, era assumir desde o primeiro momento seu apoio a Bolsonaro, tanto para abocanhar o voto antipetista, quanto até mesmo abraçando o fascismo e defendendo um higienismo policial com o tal do "atira primeiro e pergunta depois". Chamado de traidor (e realmente o é) por Alckmin, em entrevista a sua casa, a Jovem Pan, o candidato refugou no apoio a Bolsonaro, mas no dia seguinte já estava em seu programa novamente colando sua imagem na do ex-capitão que lidera as intenções de voto no plano federal.

E o oportunismo de Dória é tão grande, que até mesmo a identidade visual da campanha a nível federal foi adotada pelo "tucano" pero no mucho. Numa campanha marcada por tentar colocar medo na população, Dória cita que supostamente França tenha Lula e o "Comunismo" com "idolatria" e que ele seria uma ameaça da qual ele deixou a prefeitura para defender o estado. Como não o tivesse apoiado em outros momentos, como este não fosse o grande aliado não do PT, mas de Alckmin.

França soube usar bem essas contradições em seu programa, onde traz a população para denunciar o quão ruim para as pessoas que dependem dos serviços públicos, as mais carentes, a "gestão" do adversário a frente da prefeitura da capital, onde não a toa perde por larga margem. E ainda que respondendo os ataques com dureza, o candidato do PSB, cujo "S" há muito é só mais uma letra e nada tem a ver com um "extremismo de Esquerda" como Dória aponta, tem apresentado propostas e muita firmeza, preparando assim mais uma virada. Que venha a virada de um candidato que guardadas discordâncias, tem o que dizer e o que fazer, não sendo apenas um surfista de ondas políticas e um marqueteiro de quinta.

França tanto não é "petista", que vem declarando que: "O resultado das urnas referendou a ideia de que não queremos mais o 'jeitinho' na política", o que quis dizer com isso? O diretório nacional liberou o candidato paulista a apoiar direta ou indiretamente a quem queira e o seu aceno, o apoio de sua vice e o recebimento de volta do apoio de Olímpio, mostram que a tática do medo de Dória não vai colar. São Paulo vai escolher entre um candidato de centro e um que abraça de forma clara o que há de pior no ambiente político hoje, tudo indica que (enfim) fará uma escolha sábia.


No Rio por fim, o eleitorado tem de escolher entre o "inferno" e o "umbral". A história poderia ter sido diferente também se o PT tivesse apoiado a candidatura do PSOL, com Tarcísio Motta, afinal, o partido hoje é mais forte (vejam vocês) no âmbito carioca que o PT.

Porém, não adianta chorar o leite derramado, o estrago está feito. De um lado, um candidato democrata, porém de posturas inadequadas, de uma gestão que ao lado da de Cabral quebrou a cidade, enfim. De outro, um candidato que abraçou o fascismo, que estava lá quando dois deputados apoiadores seus, bombados, machões ("de bem?") quebraram ao meio uma placa em homenagem a Marielle, como se novamente a estivessem matando, partindo-a ao meio.

É um debate de retóricas, Witzel ameaça dar voz de prisão se for inquerido. Paes chama o adversário de fujão e o estado se perde em uma pobreza incrível de projetos. Uma coisa é certa, serão quatro anos não apenas muito difíceis para o povo carioca, mas impossíveis.


Ante todo o exposto, o apelo que se faz ao eleitorado é que avalie o que realmente representa ameaça a democracia e aos direitos individuais e coletivos. Quem inventa falsas informações, seja dos adversários ou seja de supostas fraudes no processo eleitoral (ainda que tenham saído do nada para um amplo domínio) para gerar uma atmosfera de desinformação e alarmismo, como no que antecedeu 64. O apelo é para que as pessoas deixem um pouco de lado a idolatria construída sem qualquer base e analisem o que cada candidato propõe na prática, sem palavras de ordem soltas ou ilações como "idolatra" sabe-se lá quem. O que cada candidato efetivamente tem (se é que tem) de proposta para o país e para cada estado. Se essa reflexão for feita, é possível modificar o tenebroso cenário para o qual estamos caminhando.



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Imagens: Montagem Gazeta do Povo (Reprodução BAND/AFP), Agência Estado, Montagem web, O Globo. 


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