6 horas da manhã. Toca o despertador. Os olhos abrem vagarosamente, as mão esfregam o rosto adolescente de quem terá muito a fazer naquele dia. Suspira fundo. Escolhe o moletom bordô, a camisa azul, a calça, senta na beira da cama para amarrar os cadarços de seus tênis . O caminhar vagaroso dos primeiros passos até o banheiro contrariam a índole da juventude que as espinhas denunciam. Chega até a pia pega a tiara para o cabelo longo e crespo. Na sala de casa, a irmã e a mãe terminam os preparativos do café para que todos saiam no horário. "Já ia te chamar. Hoje tem prova,né?", “Tem sim.". O vai-e-vem de “Bom dia, mano!, “Bom dia, filho”, “Bom dia, mãe”, “Bom dia, mana”, “Bom dia, filha” segue o costume de todas as manhãs. Depois de recolherem a mesa do café, despedem-se e rumam aos seus destinos. Na parada de sempre, o transporte de todas as manhãs se avizinha. O braço magro acena para o ônibus - como se precisasse- “Bom dia!”, cumprimenta ao entrar, “Bom dia”, responde o motorista. Chega na roleta, encosta seu Cartão Tri - track! - a catraca é liberada, surge o saldo na tela, - “tá bom ainda!”, pensa rápido, enquanto busca numa olhadela um assento livre.

“O movimento não tem líder, é horizontal e ninguém decide sozinho.”
7:25 da manhã. Na escola a confirmação do que era avisado nas redes sociais : todos os segundos anos continuarão saindo no intervalo por falta de professor. “Bah, a gente tá sendo prejudicado pela falta de professores. Assim não dá pra ficar”, comenta um colega, “Isso sem falar da sujeira dos banheiros”, “Viram como estão as escolas em São Paulo?”, uma outra voz pergunta, “Vamos convocar uma reunião do grêmio estudantil?”, alguém sugere. Aquele grupo de alunos decide convidar outros colegas para, no horário que deveriam ir embora, fazerem uma reunião na sala do grêmio estudantil.

Em torno de 20 alunos reúnem-se e depois de uma hora de debates acalorados decidem dar aquele passo adiante. Dentro da sala, aqueles alunos e alunas, com suas mãos nervosas e cabelos esvoaçantes, elaboram cartazes com a frase que marcará os dias da educação pública do Rio Grande do Sul de forma definitiva: OCUPA TUDO!

Se o relato acima escapa do real e passeia pela ficção, seu argumento apresenta-se com os dois pés na realidade. O discurso permanente de crise na educação, o desgaste das sucessivas greves do magistério gaúcho e a crise na representação das entidades estudantis faria com que grupos de alunos organizassem um movimento de ocupação nas 158 escolas gaúchas no ano de 2016.



A DECISÃO EM OCUPAR

Com o exemplo vindo de São Paulo, estudantes gaúchos decidiram pelo protagonismo de suas histórias e, em 158 escolas no Estado do Rio Grande do Sul, escolheram por tomar um rumo de independência das representações estudantis e partidos políticos, conforme conta Luiza Ninov Dovizinski Fialho, ex-aluna da Escola Paula Soares: ‘-Inspirados pelas ocupações de São Paulo e em razão do desmonte da educação pública no Rio Grande do Sul, decidimos ocupar a escola. Nossa primeira ação foi convocar uma assembléia com a comunidade escolar para explicar o que estava acontecendo.”



A ex-aluna da Escola Florinda Tubino Sampaio Sara Gomes mostra como ocorreu a decisão de fazer a ocupação na sua escola: “-No Tubino começamos a conversar dentro do grêmio estudantil e com amigos mais próximos sobre essa possibilidade. Depois fomos falando com alguns professores que a gente saberia que nos dariam apoio. A primeira coisa que disseram, quando a gente falou sobre ocupar, foi: leiam, estudem e conversem com quem já tá ocupando. Depois disso fizemos uma assembléia entre os estudantes do colégio, onde a maioria votou por ocupar e entre esses, passamos uma lista pra ver quem poderia ficar no primeiro dia.”

O DIA-A-DIA NA OCUPAÇÃO

Se os movimentos reivindicatórios nunca tiveram um cotidiano tranquilo devido ao enfrentamento diário, não seria o “Ocupa!” protagonizado por adolescentes, em uma realidade aparentemente fragmentada, que teria um cotidiano diferente. A descoberta que não seria fácil exigiu daqueles estudantes uma grau de maturidade que alguns talvez não tivessem. Na comparação entre os movimentos grevistas do passado e as ocupações das escolas, os estudantes souberam usar as ferramentas que tinham a seu dispor, especialmente uma de novo tipo: as redes sociais. As páginas dos movimentos possuíam o nome da escola ocupada: “Ocupa Tubino”, página numa rede social, era dos alunos da Escola estadual Florinda Tubino Sampaio. Através dela eram feitos comunicados por meio de textos, vídeos, fotos. Na página os alunos deixavam as pessoas atualizadas sobre as suas ações. Faziam campanha para arrecadar roupas, alimentos, material de limpeza entre outras coisas. No cotidiano das ocupações, os alunos dividiam-se em comissões com atribuições bem definidas:

Comunicação/Mídia:responsável pela comunicação nas redes sociais de cada OCUPAS, em que eram feitos pedidos de doações,divulgava os atos públicos.

Limpeza: Era a única comissão móvel, ou seja, tinha seus integrantes modificados por semana, para que todos participassem dessa função, sem distinção de sexo.

Alimentação:responsável pela contagem dos alimentos e pelas refeições do dia(café da manhã, almoço e janta). Esta comissão também cuidava da cozinha da ocupação.

Relações Externas: tinha a atribuição de comunicação com outras OCUPAS e também, apresentar a ocupação para quem viesse conhecer ou fazer entrevista com veículos de comunicação.

Segurança:cuidava da entrada e saída das pessoas, de todos, fazia a identificação com o CPF, por exemplo.Era responsável pelas rondas nas madrugadas.

Oficinas: tinha sob sua responsabilidade a organização da agenda diária da ocupação e seus eventos (palestras, oficinas, rodas de declarações e reuniões).


Mas nem tudo foi pacífico no dia-a-dia das ocupações, conforme relato de Sara Gomes: “-O cotidiano durante a ocupação era bem pesado e estressante, não tinha um dia sem alguma discussão ou choro (eu chorava quase sempre). Mas a gente nunca achou que seria fácil e que a gente ficaria "de férias" como muita gente dizia. No início tivemos algumas discussões com professores, direção e pais (principalmente dos alunos do ensino fundamental), mas aos poucos foram amenizando. Apesar de todo estresse, era um cotidiano de muito aprendizado e amor entre nós todos do Tubino, e entre as escolas em geral. Éramos uma família e isso foi fundamental.”

A representante do Ocupa Tubino Júlia Corrêa mostra outro aspecto do cotidiano da ocupação: “-Tínhamos uma rotina de oficinas durante o dia e todo mundo podia participar, sendo ocupante ou não. A rotina de quem ocupou era organizada em comissões em que cada um tinha uma função. Todos faziam tudo e se ajudavam uns aos outros.”

O sentimento de união e fraternidade é confirmado pela ex-Ocupa Luiza Ninov D. Fialho: “-Com o tempo construímos uma rede de afeto e cuidado muito semelhante a noção que temos de família, parecia que no mundo não existia mais nada, que aquela ocupação era nossa sociedade autogestionada e que tudo que a gente tinha estava lá dentro.”

A ex-aluna Sara Gomes confirma que os momentos de tensão ocorriam pelo medo da Brigada Militar forçar uma desocupação: “As "forças da segurança" nos davam tudo, menos segurança... Acho que o maior medo de todas as escolas era a BM aparecer do nada pra desocupar. Não tínhamos nunca a certeza de que isso não ia acontecer e de que voltaríamos todos juntos após os atos, por exemplo.”

Mas a solidariedade da comunidade escolar pareceu servir de proteção dos escolares, segundo Sara: “-A vizinhança do Tubino se mostrou muito solidária na maioria das vezes, recebemos MUITAS doações, pessoas que iam visitar pra ver como tava a escola, nos dando força e razão pra continuar, assim como a maioria dos nossos familiares. Não vejo como a gente teria continuado sem esse apoio que foi fundamental.”

OCUPA X DESOCUPA

O movimento criado pelos estudantes independentes nas escolas públicas fez surgir o seu contrário. Se estes alunos criaram o “OCUPA!”, pais e outros alunos contrários às suas reivindicações criaram o “DESOCUPA”. Segundo líderes das ocupações, este outro movimento possuía dois viés bem distintos: o grupo dos pais e o dos alunos. Cada um agia a seu modo, porém com uma origem comum, conforme relatam Luiza Ninov e Lucas Fagundes, membros do Ocupa Tubino: “-O ‘DESOCUPA’ estava ali para difamar o nosso movimento, recebiam orientações de como agir e, em alguns casos, eram orientados por Whatsapp por deputados estaduais. Eles possuiriam, inclusive serviço de telemarketing contra nós.”

COMITÊ DAS ESCOLAS INDEPENDENTES (CEI)

Em determinado momento daqueles dias de luta, os ocupantes resolveram reagir a tentativa de redução de sua pauta de reivindicações junto ao governo do estado. No dia 1º de junho de 2016, depois de uma série de reuniões os alunos das ocupações - representando mais de 20 escolas públicas - criam o Comitê das Escolas Independentes (CEI), conforme relembra Luiza Ninov :”-O CEI se construiu como uma alternativa à União da Juventude Socialista(UJS) e o Juntos que queriam reduzir a pauta de reivindicações do movimento para fazer um acordo com o governo estadual e desocupar as escolas. O CEI surgiu na necessidade que vimos em construir o movimento pela base. A construção do CEI foi um ato histórico para o movimento estudantil resultando numa formulação de uma oposição de esquerda às entidades burocratas e a reorganização do movimento secundarista pelos próprios estudantes.”

Apesar de destacar a importância de criar uma entidade alternativa que representasse a luta dos estudantes o Comitê de Escolas Independentes ficou na memória de todos e todas que viveram aqueles dias.


A OCUPAÇÃO DA SEFAZ

Depois de colocar as ocupações e suas reivindicações na pauta da imprensa e no centro do debate diário das pessoas, era necessário dar outro passo adiante: ocupar a Secretaria da Fazenda do Estado do Rio Grande do Sul (SeFaz), Apesar de não ter sido uma decisão com a concordância de todos os ocupantes, a maioria decidiu por fazer esse movimento inesperado para quem apenas assistia e via pelos noticiários o Ocupas.

Na manhã do dia 16 de junho de 2016, um grupo de 45 estudantes, agindo de forma discreta, entraram por uma porta localizada na Avenida Mauá, em seguida chegaram mais oito pessoas, totalizando 53 ocupantes. O grupo entrou na SeFaz às 7:30h permanecendo no prédio até o meio-dia quando foi retirado pela ação da Brigada Militar e foram levados ao Departamento estadual da criança e do adolescente (DECA) às 12:30.

Os alunos envolvidos no caso sofreram processo judicial que depois forte mobilização dos estudantes foi arquivado.


SECUNDAS

A ocupação das escolas públicas foi tema de um curta-metragem do cineasta Cacá Nazário chamado Secundas. A produção fez uma seleção de imagens que concede um dinamismo na sua narrativa. Os estudantes - de outras escolas como o Júlio de Castilhos - são acompanhados em vários momentos, desde debates nas escolas até momentos de tensão e enfrentamento quando a Brigada Militar usa spray de pimenta na desocupação da Secretaria da Fazenda. “Foram usadas imagens de outros cineastas como o Mateus Chaparini e o Kevin Dark, que estavam lá na ocupação da Sefaz.” O curta recebeu o prêmio da amostra de curtas gaúchos no 45º Festival de Cinema de Gramado.

 

O LEGADO

Para o cineasta o que fica do movimento das Ocupações das escolas é “o sentimento forte de mobilizações e pelo fato destes estudantes já terem uma experiência acumulada. Pra mim a grande herança é essa: na luta que tu constrói o movimento. Apesar de ter um lado pesado que é o das prisões, tem a questão também de prazer, da juventude, de rua que é muito importante. Até porque hoje em dia tem toda uma geração que fica só nas redes sociais, postando, postando...”

ONDE ESTÃO?

Os estudantes envolvidos nas Ocupações seguiram suas vidas e conseguimos descobrir o que fazem atualmente:

Sara Gomes, ex-aluna da Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Tecnologia de alimentos na UFCSPA.

Lucas Fagundes, ex-aluno da Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Educação Física na UFRGS.

Isadora Fagundes, ex-aluna Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Artes Visuais na FURG.

Luiza Ninov D. Fialho, ex-aluna da Escola Paula Soares, cursa Ciências Sociais na UFBA.

Matheus Sanguiné, ex-aluno da Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Geologia na UFRGS.

Karol Krieger, ex-aluna da Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Direito na UFRGS.

Júlia Corrêa, ex-aluna da Escola Florinda Tubino Sampaio, cursa Ciências Sociais na UFRGS.

Os profissionais envolvidos no curta Secundas:

Matheus Chaparini trabalhava no jornal JÁ e atualmente mora em Lajeado e trabalha no jornal A Hora e responde a processo relacionado a ocupação. O diretor do curta Cacá Nazário desenvolvia um projeto de longa metragem de ficção na época dos acontecimentos. Atualmente produz um filme que é parte documental, parte ficcional chamado CHAMI e está na fase de tratamento de roteiro.





Saudações,

Ulisses B. dos Santos.

Twitter e Instagram: @prof_colorado

Sobre a coluna

A coluna Sobre Tudo é publicada todas as terças-feiras.
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Ulisses Santos

Sou um cara solidário e humanista. Procuro ser empático com o outro. As relações humanas fazem com que cada um de nós seja alguém que ao acordar é uma pessoa e ao dormir seja outra. Sou professor da rede pública estadual do RS desde 2002 e escritor desde sempre. Tenho livros escritos sobre a história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Atualmente estou concluindo a graduação em Jornalismo.

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