Deputado ferido se junta a Luiz Carlos Ruas, Arthur Cosme, Rafael Braga, Lula e Marielle, apesar destes não terem defendido e escolhido a violência a despeito do diálogo

Sobre os braços de alguns militantes, que não se queixavam de dores por tal serviço, o presidenciável Jair Messias Bolsonaro, do Partido Social Liberal – PSL, participava no último dia (6), de mais uma de suas típicas atividades de campanha, desta feita no município mineiro de Juiz de Fora, quando foi atingido por uma facada que perfurou parte dos intestinos grosso e delgado e o obrigou a passar por procedimento cirúrgico. Adélio Bispo de Oliveira, que, a considerar suas publicações em redes sociais, mantinha certo rancor pela candidatura do deputado federal, é quem portava a arma branca e o responsável por desferir o ataque ao presidenciável. Vestido com uma camiseta “Meu partido é o Brasil”, o candidato acompanhava os gritos de ordem “eu vim de graça” enquanto seus apoiadores, como de costume, elevavam-no ao grau de um ser mítico. O “mito” Bolsonaro levou uma facada, naquele que foi mais um ato concreto da violência que vem sofrendo a democracia e que o JC! não permitiu que passasse desapercebido.
Foto: Fábio Motta

Ferido, Jair Bolsonaro se junta a Luiz Carlos Ruas, o “Índio” do centro de São Paulo (clique!), vítima fatal da brutalidade. Com menos sorte que o candidato, Ruas foi morto, espancado no dia 25 de dezembro de 2016 nas dependências de uma estação de metrô da capital paulista ao intervir em uma situação que ele julgou ser inadmissível: a violência contra qualquer pessoa – naquele caso, um morador em situação de rua homossexual. Ele colocou-se à frente de homens que, assim como Adélio, também portavam arma branca na forma de um soco inglês. A simbologia de sua morte suscitou o debate sobre a violência contra o grupo LGBTI, do qual o presidenciável diz não ser inimigo, apesar de ele e de aliados e seguidores, por vezes, se valerem do tal “kit gay” para impedir a elaboração e discussão de políticas públicas para essa parcela de brasileiros.


Ainda na cidade de Juiz de Fora, Bolsonaro foi prontamente atendido pela Santa Casa de Misericórdia e pela equipe médica mantida pelo Sistema Único de Saúde – SUS. De acordo com reportagem publicada pelo portal da revista Piauí, o procedimento que livrou o candidato da morte tem o custo de 367,06 reais, segundo tabela do Sistema. O presidenciável, que defende o liberalismo de menor participação do Estado na economia, ou seja, um Estado com menor poder arrecadatório – já que é possível gerar receita por meio tanto da tributação quanto do mercado financeiro, com a venda de títulos –, e a privatização irrestrita, foi transferido para o hospital de alto padrão Sírio Libanês, em São Paulo, onde deve passar o processo de recuperação. 

No dia 6 de julho de 2017, o JC! publicou editorial em que mencionava Arthur Cosme, morto por uma bala perdida que atingiu o útero de sua mãe, no Rio de Janeiro (clique!). A falta de gerência e a crise financeira levaram ao sucateamento do estado fluminense e, com isso, a situações próprias de regiões em guerra, como impedir, à bala, o nascimento de uma criança. Soma-se à síntese antes feita a atual política de combate ao tráfico de armas e drogas, que preza pelo armamento e operações diuturnas em morros e favelas a despeito de inteligência junto às fronteiras seca e marítima e do espaço aéreo.

Imagem: Cartunista Renato Machado
Enquanto a discussão nas redes sociais dava-se sob o tom de desconfiança daqueles que acreditam ter sido uma armação e de ameaças feitas por aliados de Jair Bolsonaro ao espectro político oposto – a quem parte de sua militância responsabiliza pelo ataque, reforçando como argumento o fato de Adélio ter sido filiado ao Partido Socialismo e Liberdade – PSOL, entre 2007 e 2014 –, a realidade apresentava um presidenciável ferido que passava por todos os procedimentos médicos necessários a quem teve a infelicidade de ser esfaqueado, o que desconstruiria a versão de encenação, e Bispo confessou ter agido sozinho por “motivação política, religiosa e racial” e assumiu a autoria. Se a história apresentar outra versão para o episódio, o JC! está aberto a comentá-lo. Até lá, trata-se de fatos.

O mesmo vale para o caso de Rafael Braga, único preso por participar das manifestações de 2013 e, mais, por portar uma garrafa de desinfetante (clique!). Braga tem sofrido vários reveses na justiça e contraiu tuberculose na cadeia. O rapaz está sendo alvo de uma arbitrariedade e este JC! colocou-se ao lado daqueles que lançam mão de denunciá-la, apesar de os militantes do ora esfaqueado quando não desconversam sobre a existência de tais situações, estão criticando quem as coloca em pauta com os mais chulos argumentos – de “defensor de bandido” à “leva para casa”.
Foto: Fábio Motta
Em uma posição contrária a quem defende “fuzilamento” de adversários e incita o ódio, sentimento que motivou Adélio desferir o golpe com faca em plena tarde ensolarada de Juiz de Fora, este blog sempre esteve na defesa do Estado Democrático de Direito. Não por acaso repudiou-se o assassinato brutal de Marielle Franco e Anderson (clique!) e o ataque a tiros à caravana do ex-presidente Lula (clique!), ambos os crimes sem esclarecimentos, e os discursos relativizadores de oportunistas de plantão, inclusive do ora atacado.

Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)
Não se trata de canalhice afirmar que Jair Bolsonaro foi atingido pela sua própria narrativa. Mas, a observar de maneira macro – no popular, “de cima” –, ele foi apenas mais uma vitima da relativização dos fatos – caminho que impede o debate de ideias e o mais fácil para alcançar a desgraça. Sob este aspecto, ele se junta a Luiz Carlos Ruas, Arthur Cosme, Rafael Braga, Lula e Marielle Franco, apesar destes não terem defendido e escolhido a violência a despeito do diálogo, ao mesmo tempo em que é o principal difusor de tal discurso.

Nem tudo é apenas brincadeira.



Por: Claudio Porto

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1 comments so far,Add yours

  1. O mais triste em tudo isso é que o ato criminoso e que sim deve ser combatido, não levou o candidato e seu clã político a repensarem um milimetro de seu discurso. Acusando toda a Esquerda por um ato isolado de um doente, incitando ainda mais a violência política, além do uso eleitoreiro do fato. É um buraco muito fundo.

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