66ª Semana de “adeus” à “volto comendo pastel em feiras no interior do estado e nas periferias da capital”  

Chegou a hora. João Agripino Dória Junior já não é mais prefeito da cidade de São Paulo. Apesar de ter sido eleito em 2016, por três milhões de eleitores paulistanos, para ser o chefe da administração municipal no quadriênio 2017-2020, ele se foi, mas sem antes agitar também a última “Semana do Gestor" - não é o fim do quadro, mas o último com João Dória. 
 
Imagem: Blog do Juca;
Dória havia prometido, por mais de uma vez, que cumpriria todos quatro anos de mandato e não seria candidato à reeleição. Porém, assim como outras promessas, esta também foi deixada de lado em nome de uma suposta "convocação" de correligionários tucanos, que aclamaram o prefeito "gestor" para representá-los na corrida pela sucessão do governador Geraldo Alckmin.   

Com exceção da resistência com que Dória tratava o cargo de prefeito – suas pretensões políticas ultrapassam a figura de mero gestor municipal -, as 66 semanas de administração do, agora, ex-prefeito não superaram e nem foram diferentes de seus antecessores. O leitor assíduo desta Coluna observou a esporadicidade com que comentamos iniciativas de políticas públicas. Em contrapartida, por quase todas as semanas, esta mesma Coluna esteve à frente na denúncia de desmandos promovidos às escondidas pelo prefeito "gestor". Além, é claro, do exaustivo envolvimento do ex-prefeito, e de seus comandados, em polêmicas.  
  
O ex-prefeito e candidato político João Dória deixou a Prefeitura em clima de campanha eleitoral. Na terça (03), Dória, enquanto lançava o aplicativo “SP Táxi”, aproveitou para fazer média com a classe de taxistas da cidade, que promoveram evento, com direito a balões infláveis e bandeiras do Brasil, no Vale do Anhangabaú para aclamá-lo como candidato ao governo do estado. Assim como havia feito na entrega de um conjunto habitacional na região de Paraisópolis, o ex-prefeito, novamente com a conivência de sindicalistas, voltou a usar a militância como massa de manobra para compor seus vídeos com um pouco de "povo".  
Imagem: Reprodução / "Painel", do jornal Folha de S. Paulo;
Na quinta (06), Dória voltou a discursar como candidato a governador do estado de São Paulo. O ex-prefeito participou da cerimônia que nomeou um trecho da Rua Hungria, no Jardim Europa, Zona Oeste da cidade, com o nome de “Avenida Doutora Ruth Cardoso”, em homenagem à Ruth Cardoso, ex-primeira-dama e ex-mulher de Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP). Como antecipou esta Coluna nas 53° e 56° semanas, Dória não dispensou elogios à homenageada. O ex-prefeito disse que há “homenagens e homenagens”, em referência à birra lançada por ele quando se negou inaugurar um viaduto com o nome de outra ex-primeira-dama, a ex-mulher do ex-presidente Lula, dona Marisa Letícia. Há homenagens e homenagens. Esta é uma homenagem que nos traz orgulho. Não quero fazer referência a outras. Nem se mereceram ou não as homenagens. Mas a doutora Ruth mereceu a homenagem”, disse Dória, o “prefeito fujão”.

O mesmo Dória que fez questão de realizar e ir à um evento que apenas alterou o nome da, agora, Av. Dona Ruth Cardoso, que não recebeu nada além das novas placas com o nome da homenageada, é o mesmo que, por pura birra ideológica, negou-se a sancionar o nome da ex-primeira-dama Marisa Letícia à um viaduto na região de Santo Amaro, assim como preferiu não inaugurar a obra comandada, na fase final, por sua administração.  

O mau-caratismo de Dória é tóxico a si mesmo. Torna-o cego e, acredite, impede até mesmo de inaugurar uma obra que, em partes, pertence a ele, além de distinguir, até mesmo, pessoas mortas. Ele não aceita o contraditório e recorre ao seu tradicional recurso de xingamento: são todos “Lula”. 

Por falar em ex-presidente Lula, a semana foi de mais arbitrariedades da Justiça brasileira e Dória parece ter gostado. O anúncio de que o ex-presidente tinha de se apresentar à Polícia Federal e iniciar o cumprimento da sentença rendeu vídeos do tipo “alma lavada” e “fim da impunidade” (reproduzo abaixo) nas redes sociais do ex-prefeito. Em um dos trechos mais confusos, onde parece faltar palavras para ofender o ex-presidente, Dória conclama os “brasileiros de bem”.  

 Vídeo: Reprodução / Canal "João Doria News", no Youtube;

Dória é cínico. É mais um dos muitos ditos moralistas do País. O ex-prefeito ataca Lula crente que isto renderá ganho político, assim como no pleito vencido por ele em 2016. Crente que o antipetismo vazio, sem fundamento e cheio de ódio, o levará a suceder Geraldo Alckmin no governo do estado. O cronista acredita que ele está, no mínimo, equivocado.  Não há antipestismo que esconda ou sobreponha 15 meses à frente do governo municipal de políticas públicas efetivas e intenso sucateamento de serviços públicos.

Em outro evento, a entrega da Praça Sol Peres, no bairro do Morumbi, Dória foi além, chorou e disse que sentirá falta dos mais pobres da cidade. Eu só levo boas lembranças e a saudade da cidade, do povo, sobretudo da população mais humilde, mais simples”, afirmou o ex-prefeito. 

Dória pode até “levar boas lembranças e saudade da cidade”, mas o “povo, sobretudo [a] população mais humilde” não compartilha dos mesmos sentimentos do ex-prefeito. A título de elucidação, o ex-prefeito considera “boas lembranças”, entre outros absurdos: dificultar o acesso a programas sociais como Leve Leite e o Transporte Gratuito Escolar; impedir o trânsito de estudantes, especialmente os mais periféricos, pela cidade com as mudanças no benefício Passe Livre; criar obstáculos na transparência da Prefeitura; e mais recentemente matricular crianças em creches inacabadas para maquiar números da promessa de zerar a fila da pré-escola, iniciar ataque aos servidores públicos com a contrarreforma da Previdência Municipal, projeto suspenso após intensa luta e greve do funcionalismo público municipal por 120 dias na Câmara dos vereadores, e fechamento de Unidades Básicas de Saúde e Assistências Médicas Ambulatoriais. 

Entre as “boas lembranças”, que levam à “saudade da cidade” por parte do ex-prefeito, há ainda a extinção de linhas de ônibus e cortes de repasses para construção de corredores e terminais de ônibus, ação policial baseada em especulação imobiliária na região da Cracolândia e buscou emplacar a, definida à época, “ração humana”, composta por restos de alimentos descartados por restaurantes e empresas alimentícias, de empresários parceiros do LIDE, grupo empresarial de Dória. Aliás, foram 66 semanas de muita dita parceria entre Dória, usando-se da Prefeitura, e seus colegas empresários. 

A passagem de bastão, de Dória que será candidato do PSDB à sucessão do governador Geraldo Alckmin para Bruno Covas, vice-prefeito, que será o prefeito nos pouco mais de dois anos de mandato, aconteceu em evento interno na sede da Prefeitura na sexta (06). Dória rasgou elogios ao seu vice e disse que o comando da Prefeitura não mudará com a chegada de Bruno Covas (PSDB-SP), já que é a mesma “gestão”.  O cronista lembra que Dória impediu a candidatura de Bruno Covas (PSDB-SP) nas prévias tucanas de 2015 e, ano passado, remanejou o vice-prefeito, que comandava a secretaria de Prefeituras Regionais, para a articulação política na pasta de Casa-civil. 

Dória deixa em seu lugar alguém que se assemelha a ele e a sua administração. Nessas 66 semanas, Covas foi condenado a ter seu cargo político cassado pelo Ministério Público e não conseguiu comandar uma secretaria municipal.   
 
Imagem: Portal de Veja;
Antes de partir para valer, o ex-prefeito ainda publicou um vídeo de balanço nas redes sociais. Com números inflados, Dória diz que cumpriu a promessa de zerar a fila de 65 mil crianças aguardando por uma vaga em creche, quando oficialmente a secretaria municipal de educação diz que foram criadas apenas 27,5 mil vagas. O ex-prefeito cita ainda a entrega do Hospital Municipal de Parelheiros, que teve o pronto-atendimento aberto apenas para encaminhamentos médicos naquela região, sem atendimento aberto à comunidade e com obras ainda em andamento.  

Dória segue, agora, sua vida política, já que é, sim, político. Logo menos, ele aparece em algum bar, padaria, restaurante ou feira, tanto no interior do estado como nas periferias da Capital, degustando, com nojo visível, pastel, coxinha e “pingado” já em campanha eleitoral.  

Apesar da saída de Dória para concorrer ao cargo de governador do estado, o quadro "Semana do Gestor" continuará acompanhando os fatos que mexem com a maior cidade do País. A saída de Dória leva à chegada de Bruno Covas. Dória diz que Bruno seguirá com a "gestão". Será? Continue acompanhando a Mais SP.
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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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