Enquanto todos se deixam levar pela discussão partidária das eleições de outubro, a execução brutal de uma vereadora segue sem esclarecimentos, a principal figura política do País está presa e o povo, ou parte considerável dele, seguramente, na miséria

“Perto deles, o cego da viola cantava para seu auditório esmolambado; e a toada dolorida chegava de mistura com o hálito doentio do Campo: No céu entra quem merece / No mundo vale quem tem / Eu como tenho vergonha / Não peço nada a ninguém / Que me parece quem pede / Se cativo de quem tem”, assim escreveu a centenária fortalezense Rachel de Queiroz em “O Quinze”.
Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)
A representação literária do movimento retirante de nordestinos para grandes centros urbanos no início do século passado é uma verdadeira obra-prima não apenas pela bela colcha de palavras costurada pela autora, mas por transcender as personagens Chico Bento, Ceição, Mãe Nácia, Cordulina, Vicente, Dona Maroca e servir como introdução para um artigo que busca comentar os números de desigualdade, divulgados na última semana, do país que, em apenas um mês, assistiu sua principal figura política ser presa e uma vereadora - de ideais libertários - executada. Ao menos os dois deixaram seus corpos - e almas, para quem acredita - e alcançaram o grau de ideias. Marielle Franco está morta, mas suas ideias não. Luiz Inácio Lula da Silva – retirante nordestino – está preso, mas suas ideias não. São ideias, simples e complexas assim.

São ideias que mudaram, no caso de Lula, e mudariam ainda mais, no de Marielle, os caminhos do Brasil. Mesmo que se contestem as políticas do ex-presidente, é mau-caratismo omitir que os caminhos do País foram alterados com avanços e maior preocupação social com ele à frente do Governo Federal. O mesmo vale às iniciativas de Marielle Franco. Quinta vereadora mais votada na cidade do Rio de Janeiro, a jovem de bases fincadas no conjunto de favelas da Maré, também na cidade do Rio de Janeiro, foi – e permanece sendo através de seus militantes – ponto de convergência no combate às diferentes formas de preconceitos.

Completou-se pouco mais de uma semana da teatral prisão do ex-presidente Lula (clique!), e a figura política mais popular do País, imbatível nas urnas, mantém a ponta nas pesquisas de intenção de voto mesmo após o encarceramento. Completou-se um mês da execução brutal de Marielle Franco e Anderson Gomes (clique!), e pouco se tem, em matéria investigativa, acerca dos assassinos e suas motivações. Nem mesmo os milicos aliados do presidente-nosferatu Michel Temer na intervenção eleitoreira conseguiram avançar e seguem na missão de manter o apartheid da dicotomia “asfalto” e “morro”.
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Os números trazidos pela empresa LCA Consultores, que divulgou um levantamento sobre a desigualdade no Brasil baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – a PNAD-C -, do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaIBGE –, na semana passada, mostram que o apartheid não é um mal apenas dos cariocas e ganha forma de abismo social como realidade brasileira, presente em todas as regiões do País. A realidade, quase sempre violenta e abrupta, não permite hesitação. Ano passado alertamos que o liberalismo entreguista, de privatizações e retirada de seguridades a torto e a direito, não resolveria – como também nunca resolveu – o reais problemas do País, principalmente aqueles relacionados ao bem-estar social.

Para quem temia o pior, parece que ele chegou. De acordo com o levantamento da LCA, o número de brasileiros em situação de pobreza extrema, com renda mensal de apenas 136 reais, subiu 11,2% em 2017, incorporando 14,8 milhões de pessoas ou 7,2% da população brasileira. O grupo formado por 1% da população mais rica do país ganhou 36,1 vezes mais do que a metade mais dos pobres, com rendimento médio mensal de 27.213 reais. O grupo dos 5% mais pobres teve rendimento mensal na média de 40 reais em 2017, queda de 18% quando comparado a 2016. Já entre o 1% mais rico da população, a renda praticamente se manteve e, em média, ficou em 15.504 reais mensais no ano passado, queda de 2,3% em relação ao ano anterior.

Entre as razões para a piora dos índices, acredite, estão a Contrarreforma Trabalhista, e seu incentivo ao trabalho informal, e os seguidos cortes tanto de investimentos pela Emenda Constitucional 95, de congelamento dos gastos públicos, como também de beneficiários de programas sociais de transferência de renda, como as 326 mil famílias que foram retiradas do Bolsa Família em 2017.
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Aliado aos péssimos índices de desigualdade há também o elevado número de brasileiros desempregados. O último levantamento do IBGE deu conta de 13,1 milhões de desempregados, ou 12,6% da população, em fevereiro, e 26,3 milhões de subempregados, ou seja, com carga horária e salários reduzidos. Sem mencionar o incontável número de trabalhadores informais que, pela ausência de seguridades e instabilidade, recebe menos e, consequentemente, consome pouco.
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Enquanto isso, a maioria da população e o (des)governo Temer agem como Jeremias descreveu em seu livro na Bíblia. O primeiro, parte da sociedade brasileira, “tem olhos, mas não veem, tem ouvidos, mas não ouvem”. O segundo, o (des)governo do presidente-nosferatu Temer, “não vê outra coisa e não pensa a não ser no lucro, em derramar sangue [ou encarcerar pessoas] inocente e em praticar a opressão e a violência”, enquanto muda ministros na derradeira reforma ministerial de seu (des)governo.

De uma vez só, Temer nomeou 11 novos ministros (tabela abaixo). A maioria abandonou o lado marinheiro e o barco temerário para se arriscar nas ondas eleitorais das próximas eleições. Todos estarão pleiteando a reeleição ou postulando outros cargos em outubro.

Ministros empossados na derradeira reforma ministerial de Temer
MINISTÉRIO
SAI
ENTRA
Educação
Mendonça Filho
Rossieli Soares
Desenvolvimento Social
Osmar Terra
Alberto Beltrame
Fazenda
Henrique Meirelles
Eduardo Guardia
Planejamento
Dyogo Oliveira
Esteves Colnago
Minas e Energia
Fernando Coelho Filho
Moreira Franco
Esporte
Leonardo Picciani
Leandro Cruz Fróes da Silva
Turismo
Marx Beltrão
Vinicius Lummertz
Integração Nacional
Helder Barbalho
Antônio de Pádua de Deus
Indústria, Comércio Exterior e Serviços
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Marcos Jorge (atual interino)
Direitos Humanos
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Gustavo Rocha (atual interino)
Trabalho
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Helton Yomura (atual interino)
Saúde
Ricardo Barros
Gilberto Occhi
Transportes
Maurício Quintella
Valter Casimiro
                                                                                                                                        Fonte:Portal G1;

Temer e parlamentares só pensam nas eleições – vide o pouco trabalho, para não dizer nenhum trabalho, das comissões no Congresso. O Poder Judiciário, sob o discurso de combate à corrupção, também só pensa em outubro e em como estabelecer seu projeto, com candidato e ideologia já definidos.
Imagem: Jornal Folha S. Paulo
Enquanto todos se deixam levar pela discussão partidária das eleições de outubro, a execução brutal de uma vereadora segue sem esclarecimentos, a principal figura política do País está presa, a economia apresenta números pífios com o povo, ou parte considerável dele, seguramente, na miséria.

Feliz e lisonjeado, escrevo que citar Rachel, do 1º parágrafo, em um texto é sempre muito bom. Triste e lamentando muito, escrevo que, mesmo com um intervalo de um século, falo do mesmo tema de Rachel: a desigualdade.    


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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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