63ª Semana de “seguindo a cartilha tucana” a “indústria da multa”





Parece que foi combinado, mas, ao menos de nossa parte, não o foi. O ex-prefeito em exercício aguardou esta coluna renomeá-lo na semana passada (clique!) para anunciar oficialmente que é pré-candidato à sucessão de Alckmin no governo do estado pelo PSDB. Sob o “papo furado” de que não pôde “negar essa importante convocação [de se candidatar ao governo do estado]. A maioria absoluta dos representantes e lideranças do meu partido fez esse chamado”, o ex-prefeito em exercício publicou em suas redes sociais e deu entrevistas garantindo que não tinha como negar a tal convocação dos correligionários tucanos.
 
Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)

Convenhamos que Dória nunca deixou de ser candidato. Desde que pouco mais de três milhões de paulistanos votaram no ex-prefeito em exercício em 2016, caindo no discurso do “não político, e sim gestor” – não quero acreditar que tenham levado a sério o bordão “João Trabalhador” também empregado exaustivamente em campanha -, Dória já planejava deixar a Prefeitura, como manda a cartilha tucana. Como não conseguiu o Palácio do Planalto, apesar das muitas viagens e a curiosa necessidade de armazenar títulos de cidadania, no ano passado, o ex-prefeito em exercício acredita estar credenciado para brigar e levar o Palácio dos Bandeirantes. 


A “briga para valer”, o dia das prévias, foi no domingo (18), quando tucanos do estado de São Paulo definiram o ex-prefeito em exercício João Dória como o candidato da legenda para a sucessão de Alckmin. A “briga” teve o ex-prefeito em exercício Dória, o cientista político Felipe D’Ávila, o atual secretário estadual de Desenvolvimento Social Fernando Pesaro, o atual prefeito de Praia Grande Alberto Mourão e o suplente de senador José Aníbal. Ao final das prévias, Dória levou 11.993 votos, o mesmo que 80% dos votos válidos entre a tucanada. Atrás do "prefeito fujão", ainda nas prévias, Felipe Pesaro com 1.101 votos; Felipe D'Ávila e 993 votos; José Aníbal com 901 votos; brancos e nulos com 39 e 35, respectivamente.


Foram 63 semanas de “gestão Dória”. Desconsiderando todas as semanas desde janeiro, por estarmos em ano eleitoral que, histórica e tradicionalmente, recebe atenção diferenciada e orçamento inchado por parte do Poder Público, o primeiro e, tudo leva a crer, último ano de Dória à frente da Prefeitura não foi melhor que administrações anteriores e não demonstrou ser tão diferente daquilo que já conhecemos. A promessa de que teríamos polêmicas, feita indiretamente por Dória, foi a única satisfatoriamente cumprida. As polêmicas apareceram na “baciada”, e com elas o ataque direto a políticas públicas afirmativas e violação de direitos humanos.



Lembremos que a administração Dória acabou com o Passe Livre, que hoje é um mero Bilhete Único, e estabeleceu barreiras para o Transporte Gratuito Eleitoral e Leve Leite; atacou grafiteiros no devaneio de que arte são apenas seus quadros de Romero Britto; instalou tela para esconder moradores em situação de rua; realizou a descabida ação na Cracolândia, com dispersão de usuários de drogas por toda a região Central, demolição de imóveis com moradores e pedido ao MP para internação compulsória; acabou com o bom e inédito programa de combate ao desperdício de alimentos, aprovado na Câmara, com o desastroso anúncio da tal “farinata” – a ração – que ele pretendia usar nos CTAs e distribuir para os mais pobres; marcou alunos da rede municipal com caneta esferográfica para impedir a repetição de merenda; exonerou secretários que lançaram contrapontos a sua gestão enquanto outros, condenados pelo MP e suspeitos de assédio de sexual, permanecem compondo o secretariado; entre outras ações que não foram listadas por falta de espaço, mas que divulgamos neste acompanhamento semanal da dita “gestão Dória”, que você acessa  clicando aqui


Dois pontos da lista voltaram à tona nesta semana. A administração Dória não esconde aspectos higienistas, capazes de apoiar demolição de imóvel com pessoas dentro, para repassar a região Central o mais rápido possível ao setor imobiliário – comentado por esta coluna nas 20ª e 21ª Semanas (clique!) – e também de recomendar aos funcionários limpeza que molhem moradores em situação de rua e seus objetos. Se na 29ª Semana, o ex-prefeito em exercício disse ser mentiroso o relato da repórter da Rádio CBN, que teria visto moradores em situação de rua e seus pertences sendo molhados durante a limpeza da Praça da Sé por funcionários de limpeza da Prefeitura, nesta semana, há o vídeo (reproduzo abaixo), e ele é lamentável. No vídeo, um funcionário da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana, a Amlurb, com o jato d’água, mira um morador em situação de rua que tenta se proteger cobrindo-se com um cobertor, aparentemente, já ensopado. A Prefeitura, ainda de Dória, disse que repudiou a atitude e pediu o desligamento do funcionário.

 Vídeo: Reprodução / Canal "Mundo Digital Atual", no Youtube

Ainda acerca de políticas ditas de preocupação com o grupo de moradores em situação de rua, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, do empresário Filipe Sabará, teve que dar respostas sobre o período, de três meses, em que o Centro Temporário de Atendimento de São Mateus esteve fechado. Inaugurado às pressas em dezembro e amplamente divulgado nas redes sociais do ex-prefeito em exercício, o posto do CTA só foi aberto para o público nesta semana. E mais, o ambiente foi alterado, e já não contém toda a mobília exibida por Dória no vídeo da inauguração. Moradores da região disseram ter visto um caminhão de mudança retirando a conhecida “linha branca” – máquinas de lavar roupas, fogões, freezers e geladeiras -, que, confirmado pela Secretaria, foi transferida para o posto Parque Novo Mundo, inaugurado dois dias depois do CTA São Mateus. O cronista já acreditava que Dória manipula a informação, especialmente na divulgação de dados, como a criação de vagas nas creches na 37ª Semana (clique!) e números de mortes no trânsito na 38ª Semana (clique!), mas não imaginava que ele fosse tão longe e agisse como os ditadores norte-coreanos, com a criação de ambientes agradáveis e bem vistos apenas para a gravação de vídeos.


O prefeito ainda teve de dar explicações sobre o desmonte nos programas sociais de reinserção de dependentes químicos, como o sucateamento e fim do De Braços Abertos, ainda da administração Haddad, que cede quartos de hotéis e vagas de emprego na varrição da cidade para dependentes químicos, principalmente da região Central. Desde o inicio do ano, Dória tem fechado os hotéis e remanejado os beneficiários do programa de redução de danos do ex-prefeito Fernando Haddad (PT-SP) para o credenciamento pelo programa Trabalho Novo, com requisitos excludentes, tanto que há mais de 10 mil vagas de empregos disponibilizadas, segundo Dória, mas pouco mais de 1,7 mil cadastrados chegaram efetivamente a ser contratados, e também enviados para a rede de CTAs, que, diferente do De Braços Abertos, é permitido apenas pernoitar. Apesar de toda a insalubridade encontrada e alegada como razão para o fim do programa por fiscais da Prefeitura, que tem evitado realizar a manutenção dos apartamentos e hotéis por questão ideológica, o beneficiário deixa de ter uma residência mínima e sujeita-se a rodar as ruas da cidade durante o dia, para a noite buscar uma vaga para pernoitar em um posto do CTA.


Beneficiários do De Braços Abertos e entidades sociais temem uma nova ação na região Cracolândia, na Luz, no estilo da ocorrida em maio do ano passado na mesma região. Sendo Dória pré-candidato ao governo do estado, mal avaliado nas últimas pesquisas e razão para a revolta nas redes sociais após o anúncio comentado nos primeiros parágrafos deste artigo, o temor de uma nova ação policial na Cracolândia não é nenhum devaneio.  Lembremos que à época a movimentação foi bem vista nas pesquisas. Os levantamentos pós-ação dizia que “povo” tinha comprado o massacre classista e de interesses imobiliários puramente especulativos contra os usuários de drogas, apesar de o número de traficantes e entorpecentes apreendidos ter sido pífio comparado a espetacularização da medida. 


A quarta (14) e a quinta (15) foram dias de luta e, infelizmente, repressão policial. Professores municipais entre outros servidores públicos estão em estado de greve desde o dia 08 deste mês contra as mudanças no sistema previdenciário municipal. Seguindo a linha do (des)governo federal, a administração Dória também enviou um projeto de contrarreforma da Previdência, o PL 621/16, para a Câmara Municipal com alterações que aumentam a alíquota – o desconto na folha salarial – de servidores públicos, passando de 11% para 14% aos funcionários públicos que, dependendo do salário, ainda terão que contribuir para um fundo de previdência complementar, elevando a alíquota para 18,2% descontado mensalmente. 


O projeto foi protocolado ainda na administração Haddad, mas sofreu modificações no texto tanto por Dória como pelo relator, o vereador Caio Miranda (PSB), e foi avalizada pela Comissão de Constituição e Justiça na quarta (14). E foi durante a apreciação e votação na CCJ que o clima esquentou e a polícia de Alckmin e a GCM de Dória foram acionadas para enfrentar manifestantes que acompanhavam a tramitação na Câmara. Não diferente de outras oportunidades, manifestantes ensanguentados e atingidos por balas de borrachas, incluindo uma professora com nariz quebrado, deram o tom à imagem do esquema de segurança tradicionalmente montado para reprimir manifestações.
 
Imagem: Blog "Cinegnose"

O ex-prefeito em exercício deu uma de Celso Russomano e disse que houve “excesso” de “ambas as partes”, manifestantes e guardas civis metropolitanos. O cronista acredita que quem excedeu – e tem se excedido há 63 semanas – é o ex-prefeito em exercício. Até onde se sabe, com exceção dos “manifantoches”, que ensaiavam coreografias, manifestantes não passam por treinamento para participar de protestos, mas a PM e a GCM tem módulos de treinamento focados em contenção de manifestações que, quero acreditar, não recomendam o enfrentamento com manifestantes e o uso excessivo de cassetetes, balas de borracha e bombas de lacrimogênio.  Elevar alíquota do sistema de previdência sem discussão e à base de negociação de cargos em um eventual mandato à frente do Palácio dos Bandeirantes, também é outro “excesso”, este do ex-prefeito em exercício. A pressão dos manifestantes, que tomaram por dois à frente do Palácio Anchieta, sede da Câmara Municipal, deu certo e, ao menos para a próxima semana, o projeto não deve ser pautado. A base aliada de Dória ainda não conseguiu reunir os 28 votos necessários, do total de 55 vereadores, para aprovar as alterações em dois turnos no plenário da Câmara.


Ex-prefeito em exercício que comentou o tema direto do ar-condicionado, coquetéis permanentes e ao lado de colegas empresários do Fórum Econômico Mundial para a América Latina, que aconteceu na cidade entre a terça (13) e quinta (15). 


Ainda na semana, Dória anunciou a volta da “Operação Delegada” com mais 1,2 mil policiais militares a convocação de mais 500 GCMs. Baseado no pagamento de policiais militares de folga para auxiliar no chamado “combate do comércio popular”, o programa implantado por Kassab em 2009, marca, agora, o retorno das figuras dos “rapas” e a correria nos centros de comércio popular. 

Dória foi ao ataque despreocupado com a retaguarda. Foram tantas ações ruins do ex-prefeito em exercício que uma das últimas notícias desta semana além de cômica é também uma espécie de carma. Dória, que já está proibido de usar e abusar do Cidade Linda, também perdeu, acredite, o “AceleraSP”, inclusive o gestual – o ex-prefeito em exercício foi proibido pela Justiça de falar ou realizar o gesto, o V na horizontal, em referência ao seu “acelera” sob  multa de 50 mil reais ao dia. A Justiça acolheu pedido do Ministério Público que vê no gesto “promoção pessoal”.  Parafraseando Adriana Calcanhotto em “Fico Assim sem Você, “Dória sem ‘Cidade Linda’ e, agora, sem ‘AceleraSP’, sou eu assim sem você!”.


Nesta semana o ex-prefeito em exercício ainda firmou acordo com a produtora de automóveis chineses, a BYD, para a doação de dois veículos elétricos, e divulgou números do programa Asfalto Novo, que tem sido usado para promover, dar uma melhor aparência, à desastrosa administração Dória entre os motoristas, aqueles que utilizam das vias da cidade. O ex-prefeito em exercício disse que, das obras iniciadas no último mês, 18 vias foram recapeadas e 58 estão em andamento. Dória frisa que o recapeamento de vias está sendo feito com base no fundo municipal de multas – a arrecadação com multas distribui dividendos, ou seja, os lucros, para acionistas, já que é um fundo, e financia o programa Asfalto Novo.   Lembro que a gestão Haddad tentou emplacar o tal fundo, mas a gritaria de vários setores da cidade sob a retórica vazia de “indústria da multa” e o impedimento do Tribunal de Justiça, o mesmo que autorizou Dória criá-lo agora, fez o ex-prefeito petista voltar atrás. 


O ex-prefeito em exercício encerrou a semana em Heliópolis, na região do Sacomã, Zona Sudoeste da cidade. Lá, ainda impedido pelo MP de usar sua camiseta do Cidade Linda, Dória trajava uma camisa social branca em mais uma etapa de seu mutirão.



Acompanhamento semanal do mandato de João Dória à frente da Prefeitura de São Paulo. O Gestor, como ele bem frisa, tem muito trabalho no comando da maior cidade da América do Sul, e estamos atentos a suas ações. Portanto, todo sábado, trazemos aqui um compilado da semana de Dória, ou "Semana do Gestor".

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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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