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JC Agora

Editorial - Marielle, a luta, a revolta, e os "moralistas" sem "moral"


Na noite da última quarta (14) recebemos a notícia de que Marielle Franco (38) juntamente com seu motorista Anderson Pedro Gomes, foram assassinados no centro do Rio, após serem perseguidos, cercados e alvejados, Marielle inclusive com ao menos quatro tiros na cabeça, numa clara cena de execução. Após isso, passamos a ver cenas horrendas na internet,  relatos de revolta e chamamento a luta por justiça e para que a luta dessa grande mulher não caia no esquecimento ou seja calada pelo medo, mas também o outro e sombrio lado, a relativização de sua morte e comemorações por parte das "pessoas 'de bem'" que querem "o melhor para os filhos do Brasil", neste relato difícil de produzir, vamos também falar disso, mas antes, vamos passar pela atuação de Marielle (que era o alvo) e entender o que ela realmente fazia na sua ação política, claro que a discussão não vai alcançar os ofensores, os que comemoraram a sua morte a associaram com "bandidos", afinal, este tipo de "gente" só lê o que convém, se é que lê algo, mas fica como documento histórico e manifestação pública de indignação da minha pessoa e claro, do nosso projeto..


 Marielle há tempos vinha denunciando os abusos cometidos, seja por policiais fardados, seja pelos milicianos que dominam as comunidades, impondo o mesmo ou ainda maior medo que o narcotráfico (mas para os "moralistas", isso é "belo e moral) nas comunidades. Mas a atuação de Marielle ia muito além disso, ela era uma ativista social, que mesmo com todas as dificuldades, estudou muito, sempre atuou em obras e causas sociais, até conseguir seu objetivo, defender e dar a vida (infelizmente de forma literal), não por "bandidos" como bradam os "'Heróis' da internet", as figuras cheias do "Espírito de 'Deus'", mas das populações das FAVELAS (sim, vamos usar o termo mais claro pra ver se essa cambada entende) que são oprimidas pelo poder público, pelo poder paramilitar e TAMBÉM pelo narcotráfico.

Aliás, este é um tópico a parte, quando estas carcaças, estes zumbis do pensar, referem-se a Marielle como "Defensora de 'bandidos'" o que querem? De onde estas almas penadas tiraram isto? Eu sei de onde tiraram, da ideia de que TODO FAVELADO é bandido, deste "sentimento" que desce da High Society, até os que tomam eles como exemplo, idealizam esse modelo e agem como eles, talvez para atrair isso e claro, quando chegarem (e não vão chegar lá, agindo como zumbis que se alimentam da desgraça social) lá cometerão ou cometeriam as mesmas atrocidades que estas elites nos impõem, ou pior, dos iludidos que se matam pra pagar cinco meses de seus rendimentos anuais em impostos que não são revertidos para as necessidades básicas da população e sim para o sobrelucro destas elites através de incentivos e perdões fiscais (vá VOCÊ trabalhador assalariado não pagar os seus impostos pra ver) e amplamente endividados com bens como TVs, celulares de última geração ou carros que terão de ser trocados em dois anos. Estas pessoas estão A MARGEM DA LINHA DA POBREZA e moram em semi-favelas, por vezes em favelas, que acabaram asfaltadas, urbanizadas daquela forma porca, mas urbanizadas, mas como se não tivessem (e por vezes não tem mesmo) consciência, atribuem a alcunha de bandido ao seu irmão da favela, que está sem roupa pra fazer uma entrevista de emprego, que demonstra no rosto a fome, que tem a pele um pouco mais escura, seja por ser negro, descendente de negro, ou simplesmente por que estava queimando no sol tentando vender balas, tapetes ou o que for para sobreviver.

Não, não posso aceitar calado que se atribua a TODOS que vivem em condições sub-humanas que sejam taxados como bandidos. Se eu aceitar isto, terei de aceitar que sou também bandido, que minha família é repleta de bandidos. Terei que entender até que alguns que (sem saber até) se venderam a esse sistema que segrega o pobre, também são bandidos, afinal, eles cresceram em favelas ou semi-favelas. Na favela tem muita gente decente, muita gente que precisa apenas de uma chance pra não se entregar ao narcotráfico e Marielle representava essa oportunidade para as cidadãs e cidadãos das favelas do Rio. Marielle não "colaborava" para o narcotráfico como dizem estes imbecis, ao contrário, ela tirava das mãos do narcotráfico os filhos da favela. Ela tirava das mãos dos agressores, as mulheres vítimas da violência doméstica, ela conscientizava as mulheres em relação a importância da luta contra um sistema que prega que a mulher deve "receber menos porque engravida", ou uma mulher que "deve ser contratada pra 'embelezar' o ambiente" ou que "vá ganhar mais se sair com o chefe".

Em síntese, Marielle era o que todo político deveria ser, um defensor da sociedade, uma pessoa que tratou a política como missão e não como profissão, que imaginou dar a sua vida em vida, ou seja, dar o seu suor, a sua inteligência, a sua luta, as suas horas em nome dos cidadãos, mas isso lhe custou a vida.


Estes "baluartes da ética" comemoram ainda a morte de Marielle de uma maneira ainda mais sórdida e (só pode ser) fingida, alegando que ela era uma "Bandida que defende os Direitos Humanos". Ora, quanta desonestidade, a declaração universal dos Direitos Humanos é algo que está disponível pra qualquer um conhecer e trata dos direitos mais básicos da sociedade, estes "paladinos da justiça" quando falam em "Direito a vida" (só se a vida não for de um pobre, de um negro, de um morador da favela) estão falando de Direitos Humanos.

O jornal Extra (clique AQUI para acesso ao artigo) teve de ironizar estes zumbis, fazendo um artigo com um conteúdo a que todos temos acesso, que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o que ela realmente representa (deixando claro que o "Extra" é um veículo de mídia das Organizações Globo, pela qual eu sigo tendo sérias restrições institucionais, porém, não posso deixar de reconhecer o papel desse veículo no jornalismo popular e claro, dos profissionais que lá trabalham e não podem ser "julgados" pela política institucional da empresa), mas ainda assim, os "donos da razão" acharam melhor FINGIR (mais uma vez e sempre) não saber ler e seguiram bradando suas palavras de ordem, isso me remete a um pedaço da história, mas passemos isto, por agora.


Em síntese, os Direitos Humanos servem para defender a mim, a ti, a todos. Na sua desonestidade (des)intelectual, estas "Pessoas 'de bem'" começaram a fazer competições, gincanas tentando valorizar mais outras mortes que uma, tentando desvalorizar a vida de Marielle pra enaltecer outra, tentaram converter pra "assalto" um crime onde não levaram nada (e se fosse assalto, como era "Bandida da esquerda" bem feito), um "religioso" inclusive deu a entender que "dane-se" se ela foi brutalmente assassinada, era negra, era militante de "CUT" (hã?), a morte a ser lamentada era da médica que foi assaltada pois ela não era "defensora dos 'Direitos Humanos'". Ora, todas as mortes são lamentadas, todos os crimes devem ser elucidados e os culpados cumprirem NA CADEIA as penas e de preferência com leis que realmente funcionem, que sejam realmente claras e sem brechas, sobretudo para os que tem dinheiro pra pagar os melhores advogados do país (os peixes grandes, espelhos dos falsos moralistas).


É covardia (e aí cada um sabe se seu cérebro morreu ou se é mau-caráter mesmo) dizer que a "mobilização em torno da morte de Marielle é porque ela era de esquerda". A mobilização em nome de sua morte, "inteligências supremas" é porque Marielle era uma pessoa pública, que tomou como missão de vida defender os interesses do cidadão e foi a 5ª vereadora mais votada nas últimas eleições. Ela foi a demonstração do que sempre temíamos, que o político que entra pra atuar em nome dos direitos do cidadão, será sumariamente eliminado. Que a política "deve" continuar sendo encarada como profissão, como conchavo, como antro de negociatas e não a missão de defesa dos interesses dos cidadãos mais desfavorecidos e esquecidos pelo Estado, aliás, lembrados, mas quando de cenas como estas da foto ao lado, onde, repito, o POBRE é tratado como bandido pura e simplesmente por ser pobre. Ser pobre neste país é ser subversivo, algo a ser eliminado ou trancafiado, o engraçado é como já dito, quem vive tão próximo dessa realidade ter comprado essa ideia.

O Rio, o povo fluminense conhecia Marielle, ela era uma figura como já exaustivamente colocado, presente nas comunidades, nas lutas, na defesa dessas pessoas que pouco tiveram defesa ao longo de suas trajetórias. Para todas essas pessoas e para quem (como nós) se identifica com essas lutas, é sim, como se tivéssemos perdido um parente, afinal, um irmão de luta é como um irmão de sangue. Não há que fazer competição entre a repercussão da morte de uma pessoa pública e de uma pessoa não pública, seja ela empresário, médica, cronista. Se eu morrer amanhã ninguém vai ficar sabendo, um ou outro vai rir porque "mais um esquerdista 'bandido' morreu" no máximo isso, eu não sou pessoa pública, as pessoas das quais se quis fazer competição como fosse uma briga de torcidas rivais não são pessoas públicas, a dor é de seus familiares, a notícia choca, mas o contexto por trás não é público, não envolve a todos, não envolve uma luta de uma parcela desfavorecida da sociedade, não envolve uma figura que é para muitos nas favelas do Rio e agora de todo Brasil, símbolo de uma pessoa que VENCEU, ela estudou e venceu, alcançou seu objetivo, era um exemplo (verdadeiramente e não hipócrita) do Bem, de doação ao próximo, é natural que as pessoas se mirem. As pessoas se miram em figuras que venceram, ou a minha morte terá a mesma comoção que a de Ayrton Senna ou dos Mamonas Assassinas ou dos Guerreiros da Chape, não e olha que a contribuição deles para as pessoas era INDIRETA, eles venceram em suas áreas profissionais, que por serem no campo do entretenimento, do esporte, da ciência (vide Hawking) se tornaram exemplos para as pessoas, ainda que com objetivos e ganhos pessoais no caso das áreas de esporte e entretenimento.

Além do aspecto de que a morte destes que os idiotas querem fazer competição não foi planejada visando dar fim em um instrumento de luta e sim casos (infelizmente) corriqueiros de uma guerra a qual vive em maior escala o estado do Rio, onde a INTERVENÇÃO MILITAR a cada minuto que passa parece não ter NENHUM EFEITO PRÁTICO no combate ou intimidação (como os Militares gostam de falar) da criminalidade, é uma manobra que visa somente o espetáculo midiático.


Informações divulgadas agora há pouco dão conta de que o lote de munição que foi usada na execução foi originalmente vendido a PF de Brasília, mais um indício que pode indicar desvio dessa munição para bandidos (miliciano é bandido, só pra constar) que sentiam-se incomodados com sua atuação política, mas isso é a INVESTIGAÇÃO que vai dizer, aliás uma última sobre os canalhas. Cheguei a ler na web que era absurdo a investigação andar rápido nesse caso, "só porque é de esquerda". TODO crime deve ser elucidado, não é porque vocês estão comemorando a morte, que ela não deve ser esclarecida e os culpados independente da sua posição social, punidos na forma da lei.


Tem muito de desabafo aqui sim, foge um pouco da linguagem jornalística (e temos essa licença por sermos um projeto de crônicas) e por isso eu peço desculpas se essa leitura pareceu cansativa, imaginem o meu cansaço ao descobrir este fato e ao ler cada absurdo a ele relacionado desde quarta, é uma sensação horrível.

Os que querem fazer competiçãozinha em relação a sua morte podem perguntar, mas e o Anderson, a vida dele não tinha valor? Tinha e é muito doloroso perceber que ele "teve de" morrer só por estar dirigindo o carro do alvo, provavelmente ele compartilhava sim da causa de Marielle, mas os executores e o mandante nem sabem quem ele era, nem sabem se ele tinha as mesmas convicções políticas que ela ou não, ele morreu por estar no mesmo carro, porque poderia ser testemunha chave, porque poderia estar armado e reagir. O alvo era um só e eu compartilho totalmente da dor de sua família.

Essa um pouco acima é sua última imagem em vida, ela estava na Casa das Pretas na mediação do debate "Jovens Negras Movendo Estruturas", para os elitistas, fazendo "bandidagem". Para nós, movendo estruturas de poder e inclusão social e na luta pelos direitos das mulheres, isso foi o que ela sempre fez e o que temos de seguir fazendo enquanto não formos ceifados, mover estruturas, abalar esse sistema que separa o pobre, o descartável, da elite, o admirável. Eu queria ter lutado a seu lado, mas não de forma direta, estivemos sempre lado a lado, com um olhar sob o social, não se deixando levar pela opressão. Seguirás presente Marielle, como fonte de luta e inspiração.



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Imagens: Midia Ninja, AP e Reprodução Facebook. 


2 comentários:

  1. O momento permite, e talvez exija, desabafos. Você soube captar as ideias, a luta, de Marielle Franco.

    Crime bárbaro. Morte brutal. Espero que não tenha sido em vão. E o dia de ontem, de agitação nas ruas, demonstrou que não o foi.

    Marielle e Anderson, presentes hoje e sempre!

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    1. É a primeira de outras, lamento dizer, estamos em guerra agora não mais governamental contra o povo, mas guerra armada.

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