Não só Aécio, mas toda a atual classe política. O pedreiro Manuel ressuscita a palavra que tem muito o que dizer

A pouco mais de 30 km da mundialmente conhecida praia de Ipanema, na capital fluminense, algumas famílias contam suas doloridas histórias de sobrevivência aos poucos, quase raros, visitantes – colegas jornalistas e representantes de ONGs – que se dispõe em conhecer e retratar nas páginas de jornais ou da internet a personificação da desigualdade e efeitos da concentração de renda no País - já que na tevê, a emissora que “fala com 100 milhões de uns” só enxerga o local como mais um núcleo para gravação de suas telenovelas. 
Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)

Ali, no Jardim Gramacho, uma vila fundada sobre um lixão desativado – por 30 anos, o maior em atividade na América Latina -, em Duque de Caxias, a jornalista María Martín, da edição brasileira de El País, sem dificuldades, encontra nomes e histórias (clique!) para os recentes apontamentos de que o Brasil comandado pelo (des)governo é um país desigual (clique!) e de, mais do nunca, “gente estúpida, gente hipócrita”, por Gilberto Gil em “Nos barracos da cidade”

Em depoimentos, os moradores, acredite, garantem sentir falta do lixão em atividade, isso porque o trabalho em meio aos restos de comida e descartes da “gente estúpida, gente hipócrita” garantiam parte considerável da renda de, também, gente que apenas sabia – e sabe – as regras deste tipo de ofício, além de que, ainda segundo os depoimentos, as promessas feitas à época, em 2012, pelo poder público carioca, eram mais publicitárias do que verdadeiras políticas de inclusão social, tanto que poucas – quase nenhuma – foram cumpridas. 

Enquanto os chefes de família, pais e mães mais que marginalizados, comentam as dificuldades em ficar sem comer carne há duas ou três semanas, e ter de enfrentar “autoridades locais”, chefes do tráfico de drogas, para se estabelecer em uma área-exemplo para a segregação social, crianças, corpos humanos carregados de inocência e singeleza, sorriem para as lentes do fotógrafo Ariel Subirá, que acompanha María Martín. Para essas crianças, o tempo, ainda que por enquanto, permite que mostrem seus dentes sem medo ou receio. Pois, o mesmo tempo sabe que com o tempo elas, crianças sob aquela realidade assustadora, ganham vergonha, tornam-se feias para a “gente estúpida, gente hipócrita”, mas não perdem a honestidade. A honestidade é termo imperativo na boca e vida dos depoentes da mazela carioca, e brasileira. 


Crianças sorriem em meio ao caos social; Foto: Ariel Subirá

O pedreiro Manuel Oliveira da Silva, de 35 anos, viu-se obrigado a seguir o caminho para o Jardim Gramacho assim que recebeu o ultimato de que não poderia ficar com sua família no apartamento, alugado por ele pelo valor de R$ 450,00, que ele já faltava com o pagamento há alguns meses por estar desempregado há pouco mais de um ano. Apesar disso, o humilde pedreiro Manuel é professor quando diz à María: “você acha que eu queria estar com minha esposa fazendo um barraco desses? Mas quando a gente é HONESTO é assim. Depois daqui vamos catar a madrugada toda para comprar o leite do bebê. Não temos nem para isso”


Manuel e sua família no terreno de sua nova casa; Foto: Ariel Subirá
Do lado “colarinho branco” da história, a honestidade há tempos falha, ou melhor, reduzem ela a nada. Não há prestígio ou zelo por ela. Para tanto, temos pouco mais de 1/3 do Senado Federal investigado por corrupção, e 1/5 da Câmara dos deputados igualmente investigado por crimes relacionados a desvios de recursos públicos. 
Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)

Somente em 2017, em âmbito nacional, a caixa de Pandora da corrupção alcançou 8 ministros, 24 senadores e 39 deputados, baseado em depoimentos de executivos da empreiteira Odebrecht, à época da “delação do fim do mundo” (clique!); acertou duas vezes o presidente da República em denúncias protocoladas pela Procuradoria-Geral da República; atingiu os mais íntimos ministros de Estado de Temer (clique!), e levou para à cadeia, o ex-assessor de Temer, o deputado cassado Rodrigo Rocha Loures, assistido pelo Brasil correndo com uma mala que continha 500 mil reais, e o ex-ministro do (des)governo, Geddel Vieira Lima, pego com um bunker onde escondia 51 milhões de reais, em espécie, na capital baiana, Salvador (clique!)

Outro homem forte em questão de corrupção e pouco afeito à honestidade, o “mineirinho” da mesma “delação do fim do mundo”, Aécio Neves, esteve em cena quando disse para todo o País que enviaria o “Fred”, seu primo, para receber 2 milhões de reais em ilícitos com o empresário/preso Joesley Batista, e depois o mataria (clique!), e, mais recentemente, com direito a manchete no jornal “O Globo”, implicado por ter recebido 50 milhões de reais em propinas relacionadas a construção da hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia. 

Aécio teria – e seu histórico diz que ele, sim, fez – viabilizado contratos com a Odebrecht e Camargo Corrêa para que as empreiteiras assumissem o projeto da hidrelétrica mediante o pagamento dos ilícitos. 

Quando da repercussão do áudio em que o senador Aécio deixava qualquer vocabulário de traficante no “chinelo”, o judiciário brasileiro tentou “puni-lo” com o impedimento de sair após às 22 horas, sem a cassação do mandato, e mais, permitindo que seus colegas senadores chancelassem ou não a punição. Aécio foi “condenado” pelo STF, mas logo “limpo” pelo Senado. Agora, ciente de que os 50 milhões de reais já recebidos e gastos não dará em nada, aproveitará este final de ano livre, e festejando como nunca, se a ordem das coisas se manter assim, o pedreiro Manuel e sua família terão a oportunidade de festejar. 
Manuel não sabe o bem que faz quando salva o termo “honestidade”. 

Encerro este artigo feliz por saber que são muitos os “Manuéis” espalhados pelo País. Alguns na mesma situação, outros em pior situação, mas todos prezando pela “honestidade”. 

Pesar por pessoas como Aécio, Geddel, ou até mesmo Temer, o nosso nosferatu. Pessoas que, certamente, não ouviram ou leram o depoimento de Manuel, mas que abusarão, como de praxe, deste mesmo termo nas próximas eleições. Pessoas de palavras vazias. 


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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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1 comments so far,Add yours

  1. Pô, eu tou emocionado com esse texto, sinceramente. É muito triste que o Brasil permita que tanta grana vá pro ralo que desemboca no BOLSO dos políticos e do capital internacional, enquanto essas situações são vistas em todas as periferias do Brasil. Por outro lado é muito oportuno e é uma felicidade que hajam pessoas que denunciem isso e com uma beleza literária tão grande. Parabéns amigo!

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