Muito se diz sobre a indiferença ser a pior coisa que se pode oferecer a alguém. Certamente, é algo que abala as estruturas emocionais de quem a sofre. Afinal, somos seres sociais, e a interação é o que constitui nossas relações. A indiferença é o rompimento desta premissa. Ignorar ou ser ignorado está fora do conjunto de coisas que nos faz bem. Não dar ao outro o benefício da palavra, de ser escutado, de propor um diálogo, é uma maneira de humilhar, de deixar claro que não há qualquer interesse, nem mesmo respeito por aquilo que sente e pensa o outro. Nas palavras de Mário Quintana “A indiferença é a maneira mais polida de desprezar alguém”.


Aquele que trata o outro com indiferença ou é covarde ou é egoísta - ou ambos. Covarde porque não consegue prosseguir com o que seria o caminho que leva ao que ele realmente quer, e por não saber como lidar com a dificuldade, ele foge dela. Egoísta porque importa-se apenas com o que ele mesmo sente. É indiferente ao que está na realidade do outro apenas porque isso não transforma diretamente e imediatamente a sua própria realidade, então não dedica qualquer esforço ou tempo para ouvir ou conversar. Brancos precisam ouvir negros, indígenas etc. Homens precisam ouvir mulheres, homens e mulheres cis e heterossexuais precisam ouvir os LGBTQI+. Não precisamos fazer parte de uma minoria para entender que ela não pode mais existir sob tal condição. É preciso apoiar quem quer ser feliz, conviver, agregar, da mesma forma que é preciso resistir a quem quer dividir, subjugar, polarizar. Caso contrário, o mundo será sempre apenas um cenário complexo - e luxuoso - para a hipocrisia, para ignorância e para a crueldade.

Imagem de Sasin Tipchai por Pixabay
Não podemos simplesmente ignorar o outro que, querendo ou não, é parte integrante do nosso universo. Muito provavelmente todos nós um dia fomos indiferentes ao projeto de lei absurdo que foi votado, ao morador de rua que pede uma moeda, a uma pessoa que está sofrendo e demonstra isso com agressividade, ao trabalhador que é praticamente escravizado, a um amor que não correspondemos. Uma coisa é certa: indiferença não resolve nada, não coloca ponto final em nada, não faz bem a nada nem a ninguém. Indiferença é um ponto suspenso no meio do caminho que nos faz lembrar da nossa falta de sabedoria, de compaixão, de solidariedade, de maturidade e sobretudo de humanidade. Quando algo fica suspenso no caminho daquele que foi ignorado, é uma realidade que lhe diz que ele não vale a pena, que não é nem minimamente interessante, ou que é de fato insignificante. Dizem que a indiferença é o contrário do amor, porque este vem da nobreza do coração, já ignorar o que nos cerca é a parte podre do que é ser humano.


Sobre a Coluna

A coluna Voz de Mulher é publicada sempre às segundas-feiras.


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Karina Pedroso

Escritora, tradutora, professora, revisora e artista nas horas vagas. Sou uma pessoa que ama conhecer coisas, pessoas e lugares e amo os animais. Aprender alimenta minha alma.

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