Na semana passada comentei sobre mais uma atrocidade do governo bolsonaro que estaria no estilo "paz e amor": a superação dos 100 mil óbitos por Covid19. Tragédia que, como tantas, ele minimizou ao afirmar ser "a prova viva que a cloroquina salva". Valei-me! Se você quiser (re)ler, clique aqui.

Optamos pela barbárie quando na tarde daquele domingo (17 de abril de 2016), um deputado inexpressivo, que ganha espaço na mídia pelo caráter caricato, ao proferir seu voto enalteceu a memória de um torturador. No tipo de sociedade que imagino decente, ele sequer terminaria seu voto, saindo preso de imediato por apologia à tortura. Naquele momento rompemos um limite, talvez o mais importante de todos: a partir daquele instante, a sociedade brasileira passou a banalizar a violência no discurso e na prática. Aquele deputado patético, pertencente ao baixo clero, tornaria-se o próximo presidente do Brasil.

Optamos pela barbárie quando banalizamos que uma criança caia do nono andar em um prédio de luxo no Centro do Recife(PE) e tudo caia no esquecimento no momento em que a patroa, que deveria ser presa, pague uma fiança de vinte mil reais, deixando para trás uma mãe devastada pela tragédia. Miguel tinha apenas cinco anos.

Optamos pela barbárie quando glamourizamos programas de televisão que tem como pauta única a tragédia sem meio-termos. Esta opção fica mais evidente quando os apresentadores, na simples sugestão de lançarem-se á candidaturas, descobrem que teriam chances de êxito. Em outros casos, apesar de não se elegerem, passam a influenciar candidaturas e eleitos.

Optamos pela barbárie quando em 2013, no começo de uma crise social e política que resultaria nesta aventura fascista que ocorre na presidência da república, pessoas, que haviam cometido crimes,  eram presas por populares, amarradas em postes e na televisão uma apresentadora bradava: "Tá com pena? Leva pra casa!" 

Optamos pela barbárie quando vemos uma vítima de estupro, com idade de dez anos, passar a condição de condenada por fascistas que exigem que mantenha a gestação. Em nome "da vida". Na vida da criança essas pessoas não pensaram em nenhum momento. Estas pessoas deram-se ao trabalho de ir atrapalhar o cotidiano do hospital em que a menina estava internada. Deste caso, que parece ter sido solucionado uma vez que o tio estuprador foi preso, ficam perguntas: Como a líder dos fascistas soube do nome da criança e do hospital em que estava? Que fonte é essa que ela diz ter no hospital? O que será da vida desta criança tão acostumada com a violência?

Optamos pela barbárie quando damos de ombros para verdadeiras chacinas ocorridas nas periferias, muitas vezes por forças policiais e, em muitos casos, no noticiário as vítimas sequer possuem nomes.

Optamos pela barbárie quando assistimos, sentados em nossos sofás, a líder fascista, que roubou o nome de uma espiã nazista, ser beneficiada pela prisão domiciliar depois de ameaçar um ministro da Suprema Corte. Um detalhe chama a atenção: foi o mesmo juiz que concedeu este privilégio à líder fascista. O que terá ocorrido que nos foge ao conhecimento?

Optamos pela barbárie quando assistimos complacentes um juiz determinar os rumos de uma eleição para logo ali tornar-se ministro do eleito. Este mesmo. agora ex-juiz e ex-ministro, foi defenestrado e caiu no esquecimento. Optamos pela barbárie quando um juiz determina prisão domiciliar para uma foragida da justiça e quando parece que esta decisão foi reparada, vem um ministro do STF e a revoga devolvendo o condenado e esposa para condição de prisão domiciliar. É, pelo visto, tem detalhes nos foge a compreensão. Existem aspectos relacionados ao caso Queiróz  que não sabemos e que diz respeito a muitas pessoas importantes. Pelo menos, dá a entender.

Finalmente, a verdade é que muitas são as razões para acreditar que, entre estes dois conceitos tão opostos, escolhemos aquele que nos agride a sobrevivência, colocando-nos uns contra os outros numa guerra fatricida.

Quando iniciou a quarentena, aqui em casa nos perguntávamos como a sociedade sairia deste processo. De início acreditávamos que sairíamos melhor, pois seria um momento de reflexão interior. Porém, o que se vê com, por exemplo, o aumento de casos de feminicídios é que, para mantermos ainda um pouco de esperança, não sabemos a resposta.

Sugestão de filme:"Caráter", de Mike Vam Diem (1997)

Sugestão de livro: "Fahreinheit 451", Ray Bradbury

Até semana que vem.

Saudações,

Ulisses B. dos Santos.

Twitter e Instagram: @prof_colorado

Sobre a Coluna

A coluna SobreTudo é publicada sempre às terças-feiras.


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Ulisses Santos

Sou um cara solidário e humanista. Procuro ser empático com o outro. As relações humanas fazem com que cada um de nós seja alguém que ao acordar é uma pessoa e ao dormir seja outra. Sou professor da rede pública estadual do RS desde 2002 e escritor desde sempre. Tenho livros escritos sobre a história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Atualmente estou concluindo a graduação em Jornalismo.

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