A palavra cultura tem, segundo o dicionário Houaiss, a seguinte definição: conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social; forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais e do universo de formas culturais (p.ex., música, literatura, cinema). Ou seja, todos fazemos parte de uma cultura. Se é tão óbvio, por que é importante refletir sobre isso? Porque, normalmente, acreditamos que ser culto(a) é dominar, conhecer ou produzir a erudição, o clássico, o “distinto”. O que restaria, neste caso, aos que estão inseridos em uma cultura cujos valores não vão ao encontro destes padrões? Estas pessoas são burras e dignas de desprezo na visão de muitas pessoas que se deixam levar por uma visão prepotente do mundo.


Ser culto(a) é reconhecer-se dentro de sua própria cultura sem sentir vergonha de sua comunidade, de seus costumes, de seu povo e de suas crenças. Por outro lado, a cultura sofre evolução, o que significa que os valores, as crenças, os costumes e tradições de um povo são constantemente revistos, reelaborados. Por esta razão, é preciso compreender que a evolução faz parte de nós e de nossa vida, de maneira que aceitar o que nos é imposto sem questionar é um problema. E dos grandes. Ser culto(a) é valorizar a aprendizagem, o novo, o diferente, o debate, a discussão.

Precisamos ser coautores(as) de nossa própria cultura. Às vezes, sentimo-nos um peixe fora d’água dentro de nossa comunidade (principalmente agora que tudo é polarizado politicamente no país), porque nossos pensamentos não estão de acordo com as ideias daqueles que nos cercam. Se meus livros de cabeceira foram escritos por Shakespeare, Simone de Beauvoir ou José Saramago, não significa que sou mais culto(a) que alguém. Significa que, possivelmente, tive mais privilégios e que me reconheço dentro de minha cultura e que aprecio e recrio oportunidades aos meus descendentes e àqueles que me rodeiam e com quem posso vivenciar trocas importantes.


ImageEnrique Meseguer por Pixabay 

A pessoa que percebe ignorância no outro e encontra nisso uma oportunidade de nutrir o próprio ego não é um bom exemplo de alguém que cumpre com sua função social. Afinal, política se discute. Aliás, sem discussão nem há política. Por outro lado, é preciso entender que aquele(a) que não consegue argumentar e que tem um repertório pobre de respostas para fornecer quando alguém o(a) contraria é, sem dúvida, alguém que, além de ignorar sua própria história e saberes científicos, é alienado e fanático.

O ignorante deixa de ser ignorante quando aprende a questionar. E o sujeito que acredita que é mais culto que todo mundo e não faz nada para colaborar com a evolução do meio em que vive é apenas um pedante, um pseudointelectual. Você é culto(a)? Sim. O que você faz com sua cultura, com sua identidade? É bom pensar.

Sobre a Coluna

A coluna Voz de Mulher é publicada sempre às segundas-feiras.
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Karina Pedroso

Escritora, tradutora, professora, revisora e artista nas horas vagas. Sou uma pessoa que ama conhecer coisas, pessoas e lugares e amo os animais. Aprender alimenta minha alma.

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