Talvez Chico Buarque não esteja sendo irônico em “As Caravanas” e a culpa seja mesmo do Sol

O Brasil acostumado com elogios simpáticos de ser terra acolhedora, de ter boas pessoas, está observando tudo mudar, melhor, descambar. Os tempos, infelizmente, tornaram nossa gente um tanto raivosa e odiosa. Semanalmente, parte considerável do País clama por ao menos uma “penca” de prisões e, por que não, mortes. Por aqui, a sede por Justiça já não sobrepõe-se mais e encontra refúgio apenas na “Justissa” (clique!).

Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)


Na última semana, o presidente-nosferatu viu, ao menos, dez amigos íntimos serem presos apenas para prestar depoimentos à Polícia Federal em inquérito que também investiga Temer e a edição do Decreto dos Portos, baixado em maio do ano passado. Apesar de as fortes evidências encontradas em escutas telefônicas e documentos recolhidos nos escritórios dos suspeitos, a prisão temporária foi utilizada como meio de burlar o rito natural do Estado Democrático de Direito. Como não podem mais conduzir coercitivamente suspeitos e investigados sem justificativa, agora, a Justiça expede prisões temporárias para colher depoimentos.

A ordem de prisão foi dada pela atual procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e acatada pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso, responsável pelo andamento da investigação na Suprema Corte. O espetáculo das prisões, que iniciou na quinta (29), e rendeu manchetes do tipo “Amigos de Temer são presos”, teve seu ato de encerramento no sábado (31), quando a mesma procuradora-geral da República, Raquel Dodge, mandou soltar todos, atravessando mais uma vez o trabalho dos mancheteiros de plantão que, prontamente e sem muito esforço, redigiram “Amigos de Temer são soltos”.


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 O circo, montado pela PGR e pelo STF, rendeu mídia e ameaça o presidente-nosferatu com uma possível terceira denúncia de autoria da Procuradoria-Geral da República – “flechada” em tempos de Rodrigo Janot. Neste caso, por estarmos na iminência das eleições de outubro, nem repasses de bilionárias emendas parlamentares ou cargos em ministérios fariam com que deputados se desgastassem arquivando mais uma denúncia contra Temer. Apesar de a soltura dos amigos, se a mídia – principalmente a emissora de tevê que “fala com 100 milhões de uns” – insistir em uma denúncia pela Procuradoria-Geral da República, Temer será afastado e substituído pelo presidente da Câmara e pré-candidato à Presidência da República pelo Democratas, Rodrigo Maia (DEM-RJ) (clique!) .
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Ainda na ordem de prisões, o deputado cassado Paulo Maluf (PP-SP), que aproxima-se dos 90 anos – 86 para ser exato -, após ter passado pouco mais de três meses preso em Brasília por crimes cometidos ainda quando fora prefeito de São Paulo, conseguiu que o STF, através do ministro Dias Toffoli, convertesse o regime de cumprimento de pena, de fechada para domiciliar, e voltou para sua casa, no mesmo bairro do prefeito João Dória, no Jardim Europa, Zona Oeste da cidade de São Paulo. Uma bela mansão, bem diferente da minúscula cela do Complexo Penitenciário da Papuda, o esperava na sexta-feira santa. 

No despacho, o ministro Dias Toffoli alegou que deputado cassado passa por “graves problemas” de saúde. E, sim, passa mesmo. O deputado cassado sofre de câncer e diabetes, além da idade avançada.


Para o cronista, o aprisionamento, independente de este caso tratar-se de um político idoso e doente, serve apenas para satisfazer o fetiche insaciável de alguns muitos nos tempos atuais que pedem por prisões indiscriminadas. E isso não parece-me bom.

Vale lembrar-se de Rafael Braga, preso por porte de “Pinho Sol” durante as manifestações de 2013 e condenado por tráfico de drogas - com míseras gramas de maconha e cocaína (clique!), talvez forjadas por policiais. O jovem carioca está preso desde 2016 e contraiu tuberculose no presídio. Em setembro do ano passado, a defesa, depois e muita luta, conseguiu liberá-lo para seguir o tratamento contra a doença em casa, onde ficou até 18 de fevereiro.
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Assim como Rafael Braga e, por que não, Paulo Maluf (PP-SP), há muitos outros casos parecidos. Outros muitos prisioneiros, sob a tutela do Estado, sofrem e, até mesmo, morrem de doenças silenciosas e lentas, como tuberculose e HIV, enquanto parcela da sociedade brasileira vangloria-se de assistir a espetacularização das prisões, geralmente acompanhadas de perto pela mídia, sem a percepção de que também o ato de prisão é uma “cortina de fumaça”.

Para Rafael Braga e outros presos, o caminho é o ativismo contra as injustiças e por investigação precisa e sem amarras, como a criminalização de maus agentes de segurança e da justiça. Para Paulo Maluf (PP-SP) e outros criminosos que causam danos, talvez irreparáveis, por meio de esquemas de corrupção, a simpatia à liberdade deles. É preferível vê-los livres pagando com a cassação do mandato e o ressarcimento através da perda de bens financeiros que valham o mesmo que as dívidas, do que “presos” trajando terno e viajando de jatinho para prestar depoimento, como deputado cassado Eduardo Cunha (MDB-RJ), ou humilhados com os pés algemados como o ex-governador Sergio Cabral (MDB-RJ). 

No caso de Rafael Braga, hoje, a maioria considera o ativismo por justiça como sendo ideológico promovido por “esquerdopatas que defendem bandidos”. Já em relação à classe política, os acima citados – que representam apenas parte de um universo ainda maior - continuam alguns com cargo público, outros não, porém todos com bens financeiros e níveis sociais mantidos. Em tratando-se de efeito prático, nada tem mudado para melhor, enquanto se faz do aprisionamento um show sórdido promovido pela atual “Justissa” (clique!). Isso sem mencionar aqueles que não chegam, nem mesmo, às fases de condenação por ter seus inquéritos arquivados, ou pior, prescritos, que é quando as denúncias caducam pela morosidade da Justiça.

“Aqui se prende, aqui se mata”

O show sórdido vai além do aprisionamento e, infelizmente, também é alimentado por atentados contra a vida e por mortes. Nos últimos dias, o atentado contra a vida do ex-presidente Lula provocado por pessoas que, sim, o querem morto por puro ódio e rancor, dá mostra do nível de descontrole estabelecido no País. Outro ponto de desmando é o “laboratório” intervencionista, o Rio de Janeiro, que assistiu chacinas, mortes de policiais e civis baleados e mortos na sacada de casa. Desde a assinatura do decreto em que baseia-se a intervenção de Temer os aspectos eleitoreiros desta são evidentes. 

O presidente-nosferatu não conseguiu emplacar a contrarreforma da Previdência e recorreu à Intervenção que tem surtido resultado inverso: o clima é de ainda mais descontrole na Segurança Pública do Rio após a chegada dos militares.

Os últimos quinze dias foram tomados por uma escalada de violência. Somente na comunidade da Rocinha, o número de mortos chega a 12 em oito dias. Destes doze, oito foram vítimas fatais de uma chacina envolvendo policiais militares. Já sob intervenção, o Rio registrou 113 homicídios no primeiro mês do comando militar sobre a Segurança Pública. Lembremo-nos de Marielle Franco e Anderson Gomes, cruelmente executados já no “Rio dos militares” e que, até o momento, segue sem muitas explicações.

Policiais também seguem sendo assassinados. Somente no dia 21 de março, três policiais foram mortos em um intervalo de 24 horas. Desde o início do ano, a força policial carioca perdeu 30 agentes mortos.

Enquanto isso, eles pedem que tenhamos paciência com a intervenção puramente eleitoreira de Temer, falam que o atentado contra o ex-presidente Lula foi armação, e que as vítimas de prisão e mortes no Brasil compõem a ordem natural das coisas. Está bem. Talvez Chico Buarque não esteja sendo irônico e gentil em “As Caravanas”, e a culpa seja mesmo do Sol.
Vídeo: Reprodução / Canal "Biscoito Fino", no Youtube;

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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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