No dia em que a corrupção perdeu para estabilidade, a Venezuela foi pauta e o presidente escapou assim como as mudanças.  


A atual conjuntura política não, necessariamente, exige um grau elevado de instrução dos que buscam compreende-la.  Os dias têm sido dos mais explícitos e espúrios. No popular, “só não vê quem não quer”
 
Imagem: QUADRINSTA (@Quadrinsta no Instagram e no Twitter)

Toda a epopeia instaurada após a divulgação da delação de Joesley Batista, quando contou ter se encontrado, tarde da noite, com o presidente Temer para tratar de uma “semanada” de R$ 500 mil em busca de manter a relação obscura e nefasta de sua empresa, a J&F, com a administração pública, obrigou o País a assistir o seu último e decisivo ato na ultima quarta-feira (02). Sem apreço a moralidade, 263 deputados deram a cara a tapa pelo arquivamento da denúncia, protocolada pela Procuradoria Geral da República, contra o presidente Temer por crime de corrupção passiva. Numa das sessões mais emblemáticas da história política, o mérito, prosseguimento ou não da denúncia, foi escanteado por falácias, ofensas e xingamentos contra o que eles consideram ser “comunismo”, menções a crise institucional da Venezuela e, no ápice da bizarrice, já na fase de votação, discursos de que impediram o STF  de investigar o presidente por conta de uma, dissimulada, estabilidade econômica e política.
 
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O uso desse discurso só não se equipara, quanto ao cinismo, aos muitos acintes contra as leis trabalhistas, beneficiários de programas sociais como Farmácia Popular e Bolsa Família, e, horas posteriores à decisão na Câmara, o contingenciamento no orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, impedindo o pagamento de bolsas destinadas a pesquisas. A sessão que arquivou a denúncia até Temer deixar o cargo, mesmo tendo cometido o suposto crime usando-se do cargo, finalizou a 1ª temporada da volta do neoliberalismo, o mesmo do século passado, incluindo o vicio em olhar para o norte das Américas, ao comando. 


Para a 2ª temporada, Temer já definiu suas metas. A começar pelo sistema previdenciário, ou melhor, pelo fim dele. O presidente está confiante na tramitação e aprovação da reforma da previdenciária no Congresso Nacional. A reforma altera os requisitos para a obtenção do beneficio pela Previdência Social que, notoriamente, está falida e toma parte considerável do orçamento público por ser a maior das dívidas que a União se sujeita(va) a pagar. O rombo da Previdência Social supera os R$ 600 bi e muito desse valor trata-se de calotes dados por empresas no repasse da contribuição. Para o presidente e Congresso Nacional, essa dívida tem de ser paga por aquele que sempre, em seu holerite, teve 8% de seu salário descontado. O mesmo que por estar vivendo mais terá de prolongar a venda de sua mão-de-obra, como deseja a reforma.     


No dia anterior a votação da denúncia, o presidente não hesitou em perdoar pouco mais de R$ 5 bi nas dívidas de grandes empresários rurais pelo Fundo Rural, o FUNRURAL . O Fundo foi criado para assegurar a contribuição a Previdência Social dos muitos, que até o inicio do século trabalhavam em situação análoga a escravidão, trabalhadores rurais. Temer foi tão generoso que reduziu pela metade a alíquota (dedução) de contribuição e ainda autorizou o parcelamento dos débitos em mais de 170 vezes. A redução na contribuição termina na também redução do benefício aos trabalhadores rurais que aguardam, espero que aflitos, a reforma trabalhista rural, aquele que permitirá a troca de serviços por comida, casa ou animais e frutas. 
 
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Temer estuda enviar uma reforma tributária ao Congresso Nacional que, mais do nunca, o pertence. A reforma, certamente, trará muitos pontos a serem alterados na carga de impostos do contribuinte assalariado. Não me atrevo a acreditar que eles irão mexer na carga sobre os dividendos (em Economia, a divisão dos lucros de uma empresa ou “salário” do empresário). 


Diversos articulistas políticos reproduziram a falta de mobilização legitimamente popular nas últimas ações pró-Temer. Mesmo ostentado baixa, para não dizer nenhuma, popularidade, o presidente vai passando com a sua caravana. Caravana sórdida que finge não escutar os anseios populares contra a retirada de direitos.  
 
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Temer está à solta. Escapou da 1ª denúncia da PGR e, agora, força o povo brasileiro a passar por sua ponte. Lembre-se, enquanto eles se desdobram pela manutenção de privilégios, nós, por excelência, lutamos por direitos e pela manutenção deles.  

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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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