Sobre o aumento dos casos de violência doméstica e a quantidade enorme de relacionamentos abusivos que sabemos que existem, pergunto-me, aonde vamos parar? Será possível que realmente pessoas desconsiderem o peso desta violência horrenda e acreditem que uma mulher pode desejar ser violentada ou que “goste de apanhar”, e mais, que no dia seguinte a vida dela seguirá adiante sem terríveis dores físicas e emocionais, sem traumas irreversíveis, sem qualquer tipo de perturbação ou medo? O isolamento social e a constância maior da convivência fez saltarem muito os índices que já eram altos.

Não podemos esquecer que houve um tempo em que as mulheres sequer mostravam os tornozelos e eram violentadas exatamente da mesma forma (nem que isso ainda existe em outras culturas). As pesquisas mostram desde sempre que as mulheres são violentadas em seu próprio meio familiar. Então desde pequenas as mulheres devem ter a consciência de que elas não devem ficar à vontade em casa para não mexer com os “instintos” do papai, do vovô, do titio? Isso é certamente muito revoltante.

Sobre o que é tudo isso senão sobre a falta de liberdade, de respeito, de humanidade? Até quando a culpa será do oprimido e o opressor terá suas monstruosidades justificadas? Será possível que tantas pessoas acreditem que um maníaco sexual (seja estuprador, pedófilo etc.) pode ter seu crime perdoado como se apenas houvesse roubado um pão para comer? Desde quando violar o corpo, a dignidade, a vida de uma pessoa tem justificativa? Penso que esse tipo de violência é comparável a um homicídio. Permitir que o coração da vítima continue batendo, ou que seus pulmões continuem respirando não significa que ela continuará vivendo como tem direito.

O fato é que as atitudes, os pensamentos, os valores passam a ser outros com o tempo, mas, em relação à violência e à objetificação do corpo feminino, a única diferença de tempos remotos é que isso tudo não tinha veiculação midiática, ou seja, a violência poderia permanecer com mais facilidade num certo anonimato.

Em pleno século XXI a sociedade precisa deixar de ser machista e entender de uma vez por todas que feminismo não tem absolutamente nada a ver com odiar os homens ou ter pelos nas axilas. É um atraso nossa cultura ainda propagar esse tipo de bobagens. O fato de mulheres e crianças precisarem de ajuda policial e judicial contra a violência doméstica não pode ser algo banal. Antigamente, dizia-se “em briga de marido e mulher não se mete a colher.”, mas isso é ser negligente, pois alguém pode ser salvo pela sua ajuda. Denuncie se presenciar algo, pois o medo da vítima é muitas vezes tão avassalador que ela fica inerte. Seja humano, o número é 180.

Sobre a Coluna

A coluna Voz de Mulher é publicada sempre às segundas-feiras.
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Karina Pedroso

Escritora, tradutora, professora, revisora e artista nas horas vagas. Sou uma pessoa que ama conhecer coisas, pessoas e lugares e amo os animais. Aprender alimenta minha alma.

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