Desde a posse de Messias já se passaram, até agora, treze meses e o que se vê é uma capacidade impressionante, quase ingovernável de praticar a "não-política". Em grande medida, as atitudes deste governo (do presidente à maioria de seus ministros), em muitos casos, não duraram 24 horas de repercussão, fosse na mídia tradicional ou nas redes sociais. Se o retorno midiático fosse negativo o governo não economizou em recuar e desfazer a ação original.


O (des)governo Bolsonaro usa expressões como "viés ideológico","marxismo cultural" para classificar tudo aquilo que o contraria seja na área que for e alguns ministérios são muito produtivos neste aspecto. Invariavelmente quando há algum tipo de crise se aproximando, ministros como Damares ou Weintraub surgem no noticiário como alguma peraltice. Qual sua estratégia? É simples. Prosaica até. Postar alguma coisa que choque como, por exemplo, um erro de grafia em uma rede social. Isso basta para pautar a imprensa, as redes sociais e também a oposição. Como por encanto, a crise é esquecida e só se comenta o "erro de português" do ministro da educação, ou seja, se esquece do principal para discutir-se o secundário.

Por outro lado, vale destacar valências que não vejo agraciadas nos debates a respeito deste (des)governo: o papel da (grande) imprensa e os partidos políticos em seus espaços regionais (sejam Estados ou municípios). Nenhum governo sobrevive aos humores contrariados da grande imprensa - ou alguém aqui acredita que a queda tanto de Collor quanto de Dilma foi protagonizada pelo movimento das ruas? Se Collor esgotou seu modelo histriônico de governar, Dilma mostrou-se intransigente em seu combate à corrupção ao não aceitar negociar votos na Comissão de Ética que favorecessem Eduardo Cunha. A partir dali, o então presidente da Câmara dos deputados, que havia negado todos os pedidos de abertura dos processos de impeachment, aceitou um novo pedido e o que aconteceu foi uma história que todos conhecemos.

O que temos hoje é uma imprensa que, apesar de alguns momentos de contrariedade, de um modo geral aceita o governo de Bolsonaro quase de forma bovina. Pergunte-se: existe, em algum dos grandes canais (de tv aberta ou por assinatura) o espaço do contraditório, do debate? Na mídia impressa há o contraditório de modo permanente? O modo monolítico como se comporta grande parte da imprensa brasileira torna mais fácil o cotidiano de Bolsonaro e seu ministério.

Em paralelo a isso, tem-se o papel dos partidos alinhados ao governo federal, nos âmbitos regionais: seja nos legislativos estaduais ou municipais. Os deputados e vereadores agem de acordo com a política nacional e tornam mais difícil a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. As legislações aprovadas nas esferas municipais e estaduais nada mais são do que a reprodução do pensamento de Bolsonaro, Guedes & Cia.

Poderia citar aqui os inúmeros equívocos provocados pelo ministro da educação na mais recente edição do ENEM mas, ao mesmo tempo, todo mundo já sabe do que se trata. A pergunta que que me faço, desde o surgimento deste ministro da educação, é: até onde suas ações não são "cortina de fumaça" para, como comentei acima, tirar o foco do principal?

Pois o cenário nacional é este, está posto e nos cabe discutir, debater e lutar nos mais diversos espaços cotidianos para que as pessoas no nosso entorno saiam deste aparente estado de prostração.

Saudações.

Twitter e Instagram: @prof_colorado

P.S.: *A grafia é uma homenagem ao ministro da educação.

Sobre a coluna

A coluna Sobre Tudo é publicada todas as terças-feiras.
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Ulisses Santos

Sou um cara solidário e humanista. Procuro ser empático com o outro. As relações humanas fazem com que cada um de nós seja alguém que ao acordar é uma pessoa e ao dormir seja outra. Sou professor da rede pública estadual do RS desde 2002 e escritor desde sempre. Tenho livros escritos sobre a história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Atualmente estou concluindo a graduação em Jornalismo.

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