O título deste artigo é bastante conhecido entre os museólogos. A palavra museália quer dizer, resumidamente, um objeto pertencente a um museu, sendo assim, ele teria incorporado ao seu valor já existente uma relevância ainda maior, deixando de ser apenas um utensílio para fins aos quais ele foi proposto. A ação ocorre através da contextualização resultada de uma pesquisa. Como por exemplo posso citar a bola do gol mil de Pelé, o objeto de couro é bem semelhante a outras bolas do período, algumas estão preservadas até hoje, porém, esta - em especial - tem toda uma carga de ser a bola do gol mil de Pelé, além disso, ela pode servir como uma importante fonte, sendo uma museália, a peça é muito mais do que apenas uma bola da década de 1970. Para quem quiser saber mais sobre o termo museália, indico o livro Conceitos-chave de Museologia de 2013.


É assim com todo acervo em um museu. Uma cadeira, por exemplo, quando entra em um acervo não é mais um instrumento para sentar, é uma museália. Enfim, acredito que o leitor já tenha entendido. Na coluna anterior destaquei como o mundo é um museu, mas também acho importante ressaltar que nós também somos museus. Carregamos em nossas memórias acontecimentos que nos fazem únicos e colecionamos objetos que formam acervos pessoais.

Na Vila do IAPI, o local onde mais coleciono memórias em minha vida é o Estádio Beira-Rio (sou colorado desde sempre e venho de uma família de torcedores do Internacional).

Faz poucos dias que ajudei meu irmão em uma mudança. Ele vive no apartamento onde crescemos. Enquanto estava lá eu revisitei meu antigo quarto, na janela eu vi um adesivo com as seguintes inscrições “Campeão da Libertadores de 2006”, além de um grande escudo do Inter. Na hora aquele adesivo me levou aos meus 11 anos (idade que tinha em 2006), e também me fez pensar sobre a importância dos objetos.

Aquele adesivo vai além de apenas um pedaço de plástico. Eu me lembro daquele jogo e de tudo que aconteceu para chegar até lá. Eu, meu pai e meu irmão fomos em uma tarde de sábado para conseguir os ingressos, meu pai conseguiu apenas um ingresso, pois naquele momento apenas sócios poderiam comprar, eu e meu irmão éramos dependentes da associação do meu pai, e para essa categoria apenas no domingo seria liberada a compra. Então precisávamos de mais dois ingressos, minha mãe apareceu como nossa salvadora, ela se propôs a ficar na fila durante a madrugada para garantir os ingressos para nós. Depois de ter sucesso na saga com os ingressos, fomos para o jogo.

Antes do jogo iniciar já tivemos o primeiro desafio, um grande empurra-empurra para entrar no estádio. Lá dentro a lotação beirava a máxima, muita fumaça e fogos de sinalizadores. Foi tanta fumaça que em determinado momento chegou a atrapalhar a partida, fazendo com que fosse interrompida por alguns instantes. Eu me lembro da euforia do meu pai com o apito final, foi a primeira vez que vi ele chorar, junto com as lágrimas ele caiu de joelhos abraçando-me, assim como meu irmão. Meu pai gritava que éramos campeões da América. Muita festa e alegria, pessoas falavam para mim o quanto de sorte eu tinha de ver meu time campeão da América com apenas 11 anos. Aquele dia foi marcante.

Depois, já em casa, eu estava cheio de orgulho com meu time, fui até meu quarto e colei o adesivo na janela. Tinha ganho também uma faixa de campeão e o pôster do time, presentes do meu pai. Porém, com os outros objetos, quase como presságio do que me tornaria, eu resolvi mantê-los longe da exposição, em um estado de conservação. Mas o adesivo não, ele estava lá, ou melhor ainda está lá. Muito maior que apenas um adesivo, um gatilho de memórias.

Assim são as museálias, claro que numa escala muito maior. O adesivo não é um objeto de museu, longe disso, mas ele carrega significados e memórias. Eu não esquecerei daquela noite de 16 de agosto de 2006, e aquele adesivo reforça isso. Um museu acaba sendo um local que não tem apenas objetos, ele tem vivências e memórias. Ele faz com que pessoas compartilhem de nostalgia e reforcem reflexões. Porém, temos nossos museus próprios dentro de nós, únicos e finitos, que eles sejam também preservados e celebrados.

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Grande abraço!

Sobre a Coluna

A coluna O Mundo é um Museu é publicada sempre às sextas-feiras.
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Pablo Barbosa de Oliveira

Sou Museólogo e escritor. Adoro conhece e contar histórias.

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