O ambulante que não omitiu-se e ofereceu sua vida contra a intolerância

Há exato um ano, Luiz Carlos Ruas, de 54 anos e apelidado de “Índio” pela semelhança com o povo originário do Brasil, morria assassinado por espancamento nas dependências da estação de Metrô Pedro II, no Centro de SP. O Índio era vendedor ambulante e morreu no lugar de duas travestis moradoras de rua, transeuntes daquela região, que precisaram de sua hombridade para defendê-las da violência de dois homens, que partiram a persegui-las e chegaram a agredir uma delas, a “Brasil”, como uma das travestis é conhecida. À princípio, elas tinham chamado a atenção deles por estarem urinando numa das paredes externas  da estação. Em depoimento, já neste ano, “Brasil” disse ter sido coagida pelos homens, que acusava-a de ter roubado o celular de um deles, e neste instante iniciaram as agressões. 


Imagem: Jornalistas Livres

Índio estava ali, defronte a uma das entradas da estação, como fazia todos as dias. O Sol estava para se pôr, e ele arrumava os produtos, água, doces e salgadinhos, de seu carrinho, já que o dia tinha chegado ao fim e tinha compromisso à noite: a Ceia com a irmã. A situação financeira, um pouco debilitada, daquele mês não o permitiu folgar no feriado de Natal. 

Índio seguia para casa, onde a Ceia estava sendo preparada por sua irmã, que tinha deixado-o pouco antes das agressões. Ela ajudava Índio no comércio ambulante, e tinha saído mais cedo para preparar aquele que seria um jantar simples, porém, carregado com a simbologia do Natal.

Maria Aparecida Ruas, de 66 anos, preparou o jantar e aguardou, mas quem veio não foi o irmão conhecido por Índio pela sua pele avermelhada e cabelos lisos, e sim a notícia de que ele tinha sido espancado até a morte, numa briga covarde em que saiu pela defesa das travestis. 

Índio já não estava em seu carrinho, nem mesmo voltando para casa naquele Natal, mas na tevê em repetidas imagens de puro ódio, tentando defender-se dos socos e pontapés dos primos homofóbicos, Alípio Rogério Belo dos Santos, de 27 anos, e Ricardo do Nascimento Martins, de 21 anos. 

Caído sobre o piso da estação Pedro II, do Metrô, Índio morria por ter entrado numa briga que não pertencia apenas a ele, mas a toda sociedade brasileira.

Leia "Índio esteve do lado 'errado'" (clique!)

Um ano após o assassinato de Luiz Carlos Ruas, que poderia ser apenas mais um, entre os muitos, ambulantes do Centro, mas que tornou-se uma espécie de "mártir", os seus assassinos entraram com pedido por Habeas Corpus em agosto passado, que foi recusado pelo MP, e estão sob prisão a espera do julgamento pelo Tribunal do Júri por crime de homicídio qualificado. 

Luiz Carlos Ruas tornou-se nome de um centro, da Prefeitura, voltado ao acolhimento e assistência de pessoas LGBTI. O Centro de Cidadania LGBT Luiz Carlos Ruas, na região do Arouche, tem mais de 500 metros quadrados e funciona desde outubro passado. No início deste mês de dezembro, mês que deveria ser de homenagens ao Índio, vândalos invadiram o espaço, furtaram objetos, urinaram e defecaram no local, além de depredarem toda a instalação.

No Brasil, a ONG Grupo Gay da Bahia divulgou em setembro uma prévia para o relatório anual de agressões verbais e físicas, e mortes relacionadas à homofobia. O relatório inclue apenas crimes notificados, deixando de fora os subnotificados, aqueles em que a vítima não presta queixa, e os omitidos pelo Estado, que por vezes não colabora em levantamentos do tipo, por saber que será fortemente criticado pela falta de políticas públicas inclusivas. 

Em setembro, os números já contabilizavam 277 homicídios em todo o País, com média passando, pela primeira vez desde que os dados passaram a ser analisados em 1980, de uma morte por dia em homicídios cometidos, único e inclusivamente, por conta da escolha de vida, e opção sexual, das vítimas. 


Imagem: Reprodução/ ONG Grupo Gay da Bahia

Já a Rede Trans Brasil, analisando e cruzando informações, aponta para mais de 125 mortes até setembro deste ano relacionados à homofobia. 


Luiz Carlos Ruas deu sua vida não importando se seria um presente valioso demais aos violentos primos. Apesar de tê-la entregue por uma causa nobre, também foi vítima de um crime bárbaro cometido pelo ódio e rancor que ainda fortes resistem pelas ruas, vielas e guetos. 

Fazer valer a máxima pela qual Jesus, o Nazareno aniversariante em 25 de dezembro, é lembrado até mesmo pelos menos fiéis, “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”, é homenagear a vida dos vários “Luizes” que não omitem-se e vão à luta por igualdade. 

Espero que o Natal, produto nobre do mundo publicitário, possa um dia ser mais justo e verdadeiramente feliz. Enquanto “Luizes” e outros tiverem de enfrentar o preconceito capaz de matar, oferecendo suas vidas para chamar atenção para falhas no processo de humanização, a indignação e infelicidade são dádivas. Não é errado sentir-se infeliz quando as coisas não estão bem. É um erro e tolice comemorar sem ter o que comemorar. 

Feliz Natal! 


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Claudio Porto

Jornalista com predileção à análise política nacional e internacional, e em jornalismo local, comunitário.

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